A história é muito simples, mas bem costurada, as canções são de qualidade. Percebe-se logo por que Lin-Manuel Miranda, o criador do festejado “Hamilton”, resolveu transformar “Tick, Tick… Boom!” em filme.
O pequeno musical, que estreou formalmente em 2001, mas nasceu no palco como “monólogo rock” em 1990, parece estar sempre a um passo de “Rent” —o musical posterior e histórico de Jonathan Larson (1960-96), sobre o impacto da Aids numa comunidade de artistas.
Remete em parte aos mesmos tópicos e ritmos. De certa maneira, anuncia “Rent”, explorando a própria vida de Larson numa Nova York de quitinetes, da boêmia teatral que o cercou até morrer cedo, tornando sua trajetória tão romântica.
É quase uma trama de chegada à maturidade, “coming of age”, no caso, de alcance da vida plena como artista. E as suas primeiras composições já prometem, sobretudo aquelas que sobrepõem duas ou as três vozes.
Para tanto, conta com versões sonora e tematicamente precisas das letras, como é raro ouvir no teatro musical brasileiro, talvez por terem sido feitas pelos próprios atores Bruno Narchi e Thiago Machado.
A encenação se concentra no trio de intérpretes e nos quatro integrantes da banda. Não é produção de recursos para cenários etc., mas no que investe, ou seja, em seu foco nos atores e na música, o saldo é palpável.
A banda, com os solos de guitarra de Thiago Lima e a regência teatralmente atenta do tecladista Jorge de Godoy, responde à altura dos sonhos roqueiro-musicais de Larson.
No elenco, na apresentação que se viu, o início titubeante logo fica para trás e os três oferecem cenas memoráveis dos bastidores e das aflições do teatro, que são também deles, que vêm se firmando na cena musical.
Narchi e Machado, na sala mais intimista da Faap, dirigidos em interpretação e voz por Leopoldo Pacheco e Bel Gomes, mostram o quanto amadureceram e são capazes de se deixar arrebatar.
O resultado são quadros em que o elenco vai ao limite, cômica ou dramaticamente, de seus papéis e da trilha. Um deles, em que os três cantam juntos (“Sugar”, no original), é particularmente bem-sucedido, com Machado em estado de graça.
Mas o ápice da apresentação, com aquela que é obviamente sua melhor canção (“Come to Your Senses”), é tirado do próprio musical que o protagonista está compondo, no enredo.
Giulia Nadruz tem uma voz de calar o ambiente, com emoção, alcance, domínio. É especial, de cortar a respiração do espectador.
Mas “Boom!”, com todas as suas qualidades, deixa então um vazio. O que vem à mente, ao sair, é o que mais haveria de joia oculta em “Superbia”. É o nome do musical anterior e esquecido de Larson, que o célebre compositor Stephen Sondheim tanto elogiou e jamais foi montado —a não ser pela música cantada por Giulia.
]]>Escrita nos anos 1960 pelo americano James Goldman e passada na Inglaterra da Idade Média, “O Leão no Inverno” não é uma peça que conversa fácil ou diretamente com o público de hoje, não no Brasil atual.
Mas uma fala mais longa no meio da apresentação, da personagem de Regina Duarte, Eleanor, a rainha encarcerada, que o rei permite voltar ao palácio para o Natal, dá a chave tanto para o elenco quanto para o espectador sobre o que está em jogo.
Diz ela aos três filhos, que disputam nos bastidores quem vai herdar a coroa:
“Ah, meus inocentes, nós somos a origem da guerra. Não são as forças da história ou os tempos ou a justiça ou a falta dela, nem as religiões, nem os acontecimentos, nem as ideias, nem os tipos de governo, nem qualquer outra coisa. Somos nós.”
Então fica claro, como escreve o tradutor Marcos Daud no programa, que “são tempos curiosamente semelhantes aos nossos… de alianças e conluios, de golpes e trapaças, de luta pelo poder”.
Ou ainda, para continuar com a rainha de Regina Duarte, somos nós —os espectadores, os brasileiros— que semeamos a sífilis, que estamos podres.
Com a singeleza de expressão entremeada por ironia que o público de televisão conhece bem, a atriz pergunta: “Será que não temos capacidade de amar uns aos outros só um pouquinho? É assim que a paz começa”.
Obviamente, ninguém mais se ama ou vai se amar novamente naquela família que se confunde com o Estado.
Fora essa e algumas outras cenas, porém, tanto a atuação da protagonista quanto o espetáculo à sua volta se ressentem de elos mais próximos com a realidade —e buscam se proteger num afetado teatro de corte, de conflito interpessoal sem maior atrativo.
A própria atriz parece se refugiar por vezes numa voz anasalada e monocórdica, em suma, ausente.
Também Leopoldo Pacheco, outro intérprete de identificação imediata com o público, como atestado anteriormente no palco, tem agora dificuldade para se envolver com seu personagem, o rei Henry 2º, e aproximá-lo do espectador.
Não ajuda o fato de, na guerra familiar que representam, o filho mais velho e de maior projeção na trama, Richard, ser composto de uma maneira artificialmente afrontosa, sem sutileza, por Caio Paduan.
Isso lembrando que o papel foi de Anthony Hopkins, no filme célebre de 1968, e de Christopher Walken, na estreia da peça em 1966, na Broadway.
É preciso registrar por outro lado que, na apresentação vista, acrescentou-se o problema de uma plateia fechada para convidados de uma instituição, que se mostrou fria e até reativa ao que assistia. Olhando retroativamente, o elenco dirigido por Ulysses Cruz se defendeu bravamente, dadas as circunstâncias.
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