Crítica: Com Débora Reis, ‘Hebe’ é tocante ao focar a cantora por trás da apresentadora de TV

Abordando “A Partilha”, texto de 1991, a crítica Barbara Heliodora se deixou levar e comparou Miguel Falabella a Tchekhov. O evidente exagero indicava, ainda assim, o domínio que ele desenvolveu das palavras, no teatro.

Em “Hebe, o Musical”, a comédia dramática que Falabella encena faz lembrar aquelas que o celebrizaram há três décadas, com papéis femininos enternecedores, próximos —e engraçados.

Artur Xexéo, que fez a biografia em que se baseia o espetáculo, dá o tom de encantamento com a figura de Hebe Camargo. Seu livro já não escondia a admiração pela pioneira da TV brasileira.

E o roteiro, pelo que ele relata no programa da peça, foi escrito “o tempo inteiro pensando no que Falabella gostaria”. Poucos meses em cartaz e as marcas do diretor se aprofundaram ainda mais em personagens e diálogos.

Quadros que não funcionaram de início se revelavam, no final do ano, com desenvolvimento amplo, sem desperdiçar palavras, aproveitando as deixas para reações variadas, da dor à graça.

É este espetáculo sem buracos de ritmo ou passagens supérfluas, coeso da execução musical às coreografias e às interpretações, que reestreia nesta quinta (4).

É mais uma biografia de celebridade de TV, num esgarçamento que avança pelo constrangedor (vem aí “Ayrton Senna, o Musical”). Era esse o risco de “Hebe”, mas Falabella, após encenar todo tipo de musical, dominou o caráter coletivo do gênero.

Chama profissionais como Fernanda Chamma, aqui assistente e coreógrafa, o diretor musical Daniel Rocha e Gringo Cardia. Diretor de arte, este responde pela aposta de maior risco, tornando verossímil todo um primeiro ato em preto e branco, até maquiagem, num retrato de sonho da televisão e do país.

A encenação é ajudada ainda pela capa de ironia que a atravessa, com personagens e intérpretes se mostrando capazes de rir e no momento seguinte retratar cruamente seus grandes reveses.

O papel-título é desvendado aos poucos como o de uma sobrevivente, evitando excessos, surgindo resistente e também falha. A maneira como atravessa obstáculos sorrindo, sobretudo quando mais velha e machucada, interpretada por Débora Reis, é inesperadamente tocante.

Veterana de clássicos musicais locais como “Cazas de Cazuza”, Reis e a jovem Carol Costa convencem que Hebe foi antes de mais nada cantora —a chave de Falabella e Xexéo para o espetáculo.

Ela queria ser e “Hebe” defende que foi, embora sufocada pela apresentadora de TV. Quadros com o Agnaldo Rayol de Frederico Reuters e inúmeros outros tornam o musical uma descoberta, até para as fãs na plateia.

O jornalista Xexéo se amoldou naturalmente ao teatro e, tanto quanto os diálogos, as canções que selecionou da trajetória de Hebe sustentam vivamente o espetáculo.

Para além da linearidade biográfica, dos pais aos maridos e amigas, o musical recorre a paródias de comerciais ao vivo e até game show. Funcionam bem todos esses rápidos “números de cortina”, que introduzem um ar de teatro de variedades.

E ao longo da apresentação se mantêm em nível elevado não só as atuações dos protagonistas, mas a de intérpretes com pouco tempo, entre os 21 que tomam o palco, como o Mazzaropi de Adriano Tunes ou a garota-propaganda de Giovana Zotti.

Uma versão desta crítica circula na edição de 4 de janeiro de 2018, com o título “‘Hebe’ é tocante ao focar lado cantora”