“Janela” inspira olhar da Fotógrafa Lenise Pinheiro

Por Lenise Pinheiro

É entre frestas que vejo meu despertar.

Paraliso frente a um olhar de esguelha.

De imediato um link, pensamentos voltados para o estado de saúde de Tancredo Neves, em 1985. Sua internação, presença constante do noticiário, transformou a janela do Hospital Incor em um dos termômetros do estado de saúde do presidente recém empossado. Na janela, o desfile da política nacional. Foto de Dona Risoleta na janela? Capa.

Tancredo, era amado pelos brasileiros. As coberturas sobre sua infecção hospitalar, se dividiam em plantões, para os quais fui escalada. Madrugadas, chuvas, sois de abril e dores nas pernas.

Aglomerações na calçada eram minha especialidade, ainda me vejo passando por debaixo das pernas dos fotógrafos, fiz até foto aérea da janela, revelava os negativos em tempo real. Foram muitos dias.

Criamos laços entre transeuntes, enfermeiros e médicos. Políticos evitavam falar, mas se deixavam fotografar. Alguns de terno, outros em roupas informais, já era tendência, o pullover com as mangas amarradas, ao redor do pescoço.

Boletins evasivos e boataria. Muito se falou da foto onde o presidente aparecia vestindo robe e pijama. Imagem, a meu ver, “o gato subiu no telhado”.

Agora a janela é outra. Mantive a persiana,

Moldura para o olhar da atriz (alguém advinha quem é?) que joga luz nos palcos e nas plateias.

Nosso cenário político, também tem que clarear.