“dadesordemquenaoandaso”,montagem sobre um portador da síndrome de Asperger, em cartaz em São Paulo

Por Lenise Pinheiro

Potyron, palavra oriunda da língua Tupy, aponta para uma idéia, que se aplica a essa encenação. Significa, mãos que se juntam.

Enquanto fotografo me afeiçoo a Steve, personagem portador da síndrome de Asperger, e aos outros que dão vida a essa trama, carregada de ausências.

Cassetes e canivetes:

Stevie: Olha.

Gemma: Pra que que é isso?

Stevie: Proteção.

Gemma: Legal.

Pausas:

Gemma: Você tá metido em algum problema?

Stevie: Problemão.

Gemma: O que foi? Talvez eu possa te ajudar.

Stevie: Eu matei uma pessoa.

Gemma: Tá falando sério?

Stevie: Tô.

Gemma: Isso é incrível. Quero dizer terrível. Quem você matou?

Morrer é ser esquecido? Nós não somos imortais, mas podemos ser eternos?

Comunicação onde frequências não sintonizam.

Representam em vias entupidas de pessoas ensimesmadas com seus fones de ouvidos, anunciando a trilha sonora daquilo que não se pode escutar, apenas pressentir.

As dificuldades de expressão, além da Síndrome.

“Acredito que a peça seja uma saga a respeito das diferenças. É um apelo a alteridade”. Diz Ricardo Corrêa , ator que empresta vida a Steve.

Estranhamentos nas mãos que já não se tocam mais.

Irreverência. Paradoxos:

– “Eu não estou aqui”.

Lembranças da infância. Da professora com a tesoura, pequenos talhos no papel dobrado, que se transformavam numa mandala. Bonequinhos de mãos dadas.

Nessa peça, um está de ponta cabeça. Fora da curva. Brincando no palco, girando tonto como um pião. Onde terminado os rodopios revela ainda cambaleante, movimentos descontinuados, até tombar na nossa frente.

Aplausos.

Oficina Cultural Oswald de Andrade – SP

Segundas e Terças 20h

Texto: Davey Anderson.

Tradução: Caio Badner.

Direção: Carlos Baldim.

Elenco: Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme, Ricardo Corrêa.

Cenário: Cesar Resende de Santana (Basquiat) e Carlos Baldim.

Iluminação: Fran Barros.

Figurinos: Maitê Chasseraux.

Música Original: Dan Maia.

Assistência de Direção: Mariana Leme.

Vídeo: Zeca Rodrigues.

Ass. de Vídeo: Nanda Cipola.

Produção e Realização: Cia. Provisório Definitivo, Cia Artera e Cia de Teatro.

Oficina Cultural Oswald de Andrade – SP

Segundas e Terças 20h