Crítica: Com Laila Garin, ‘2 Filhos de Francisco’ atesta T4F também para musical brasileiro

Por Nelson de Sá

São dois atos muito diferentes, não apenas pela história, pelos fatos mais ou menos biográficos que narram, mas na própria forma. O primeiro, mais fabular, quase um sonho, é largamente superior ao segundo.

Nele, soltam-se as rédeas à imaginação, a partir do núcleo familiar e de clássicos da música caipira cantados pelos irmãos Mirosmar, futuro Zezé Di Camargo, e Emival, que morre no final do ato, ainda criança.

Na apresentação acompanhada pelo crítico, eles foram vividos respectivamente por Marco Souzza e Pedro Miranda, atores mirins que impressionaram o público, não só por suas vozes. Motivaram aplausos emocionados em meio à interpretação das músicas.

Em relação ao filme de 2005, também dirigido por Breno Silveira e roteirizado por Carolina Kotscho, o que muda mais é que a mãe, Helena, divide o protagonismo com o pai, o Francisco do título, no primeiro ato.

Em 2007, Kotscho lançou uma biografia sobre ela, “Simplesmente Helena” (ed. Planeta). E na adaptação para o teatro musical, como a mãe era quem cantava para os filhos, o papel cresceu. O espetáculo torna-se quase “2 Filhos de Helena”.

A personagem é representada por Laila Garin, de “Elis, A Musical” e “Gota d’Água [A Seco]”, que protagoniza agora belos quadros que escapam do realismo —e também do conservadorismo associado à vida sertaneja.

A Helena de Garin consegue já desde o seu primeiro quadro cômico-musical —uma sequência frenética de sexo, gravidez e filhos aos montes— uma combinação precisa com o Francisco de Rodrigo Fregnan.

Veterano provado em papéis dramáticos, Fregnan garante para o seu personagem uma densidade que, sustentada pela dramaturgia e pela interação com Garin, se mostra alternadamente cômica e trágica, de grande efeito.

Todo o primeiro ato é uma comprovação de que a T4F, com nomes como o diretor musical Miguel Briamonte e a diretora associada Rachel Ripani, tem potencial para transpor a qualidade das suas versões da Broadway para o musical brasileiro.

Os problemas começam no segundo, que troca Goiás por São Paulo e os clássicos pelo sertanejo mais contemporâneo. A trama vai se tornando melodramática, com cada vez menos alívio cômico, como se não pudesse mais rir de si mesma

Sofrem os protagonistas, agora os adultos Zezé e Luciano, este o irmão mais novo que entra no lugar de Emival, na dupla. É como se os diálogos ainda estivessem em desenvolvimento, as cenas ainda precisassem de apuro.

Estrela do musical paulistano, Beto Sargentelli, que faz Zezé, tem mais com que trabalhar, tanto em humor como em canções. E em pelo menos um quadro, no qual interpreta diversas canções, se mostra virtuosístico.

Mas a integração com o Luciano de Bruno Fraga não acontece, cena após cena, e o ato vai aos poucos ganhando ares de show “cover”. Até terminar, apropriadamente, com a pop “É o Amor”.

Uma versão desta crítica circula na edição de 6 de outubro de 2017 com o título “Musical emociona, apesar de altos e baixos”