Crítica: ‘Boca’ revela o melhor de Gabriel Villela e de seus atores, a começar de Malvino Salvador

Por Nelson de Sá

O Gabriel Villela formalista de quase três décadas atrás, propenso a sacrificar a cadência da cena pelo esplendor de um tríptico barroco, ficou definitivamente para trás.

Na 43ª encenação profissional, de volta a Nelson Rodrigues, um de seus dramaturgos constantes ao lado de Chico Buarque e Shakespeare, realiza talvez seu melhor, mais prazeroso espetáculo.

Brinca com todos os elementos, até mesmo a prosódia portuguesa dos atores no teatro brasileiro pré-Nelson.

Coloca no palco do Tucarena não só um carrossel de referências visuais, de imagens que remetem sequencialmente para todo lado, mas as integra com riqueza de significados ao texto rodriguiano —e às atuações, elas também com abundância de registros, inspirada no autor.

São grandes atuações, a começar do personagem-título, que na caracterização de Malvino Salvador, dirigido por Villela, se mostra alternadamente frágil como uma criança, monstruoso e cinicamente inteligente.

Já conhecido pela densidade que demonstrou em montagens cariocas, Salvador ganha agora ares de ator pleno, pronto para grandes papéis.

Não está sozinho, em “Boca”. Como Caveirinha, o repórter policial que incorpora o próprio jornalismo, Chico Carvalho é provocador e ao mesmo tempo “zanni”, manipulando e se condoendo por Guigui.

Ex-amante de Boca, é ela quem apresenta ao repórter as três versões sobre o crime do protagonista —ecoando “Rashomon”, filme de Kurosawa premiado em Veneza e no Oscar e influência negada, mas evidente, sobre a peça.

Com uma performance “maior que a vida” de Lavínia Pannunzio, que salta entre o amor e o ódio por Boca, daí as versões que vai apresentando, Guigui e Caveirinha escancaram o elo que o diretor faz entre Nelson Rodrigues e o fenômeno contemporâneo das “fake news”, da chamada pós-verdade.

Jornalista que começou adolescente na reportagem policial, o dramaturgo viu uma notícia se tornar tragédia diante dele, na Redação, com o assassinato de um irmão seu por uma mulher caluniada pelo jornal.

Ilustrador, artista plástico e cenógrafo do primeiro teatro moderno no Brasil, Roberto Rodrigues e sua morte foram capitais para o teatro de Nelson.

Em relação à sua trajetória com o dramaturgo, iniciada com “A Falecida” em 1994, o diretor dá um salto ao buscar nos diferentes registros de cada interpretação a síntese entre o drama e a comédia, síntese que é buscada, na origem, pelo próprio autor.

O drama e a comédia são enfatizados através das facetas alternadas de Boca, Guigui, Caveirinha e Celeste —esta representada por Mel Lisboa, também em sua atuação mais complexa e admirável no palco, do que foi possível ver.

Com base em análise do crítico e editor do dramaturgo, Sábato Magaldi, que foi depois seu professor, Villela busca romper a dicotomia costumeira em torno de Nelson, que divide a obra entre encenações cômicas (e superficiais) ou dramáticas (e sem qualquer humor).

Além das interpretações e de detalhes enriquecedores na mesma linha, como o figurino em camadas, “Boca de Ouro” é mergulhado em música, com destaque para o coro em “De Frente Pro Crime”, de João Bosco.

Mariana Elisabestky, que faz a cantora da gafieira em que tudo se passa, na versão de Villela, vai da dor de Dolores Duran à ironia de Cássia Eller e é por si mesma um espetáculo.

Uma versão desta crítica circula na edição de 18 de agosto de 2017, com o título “Com ótimo elenco, Gabriel Villela realça riquezas de ‘Boca de Ouro’”