Crítica: Em ‘As Criadas’, com Bete Coelho, Magali Biff e Denise Assunção, luta de classes se torna um thriller sarcástico

Por Nelson de Sá

“As Criadas” não tem o volume e alvoroço da peça anterior do polonês Radosław Rychcik no Brasil, “Na Solidão dos Campos de Algodão”.

Agora as atrizes estão a maior parte do tempo em poltronas, diante da plateia, e não se tocam. Dialogam. E a banda ao vivo interpreta uma trilha intermitente acentuando conflitos e situações, dando cadência aos diálogos, em equilibrada interação.

Apesar da postura superficialmente estática, sobra dinamismo na apresentação, sobretudo pelas três atuações, marcadas, díspares.

O original de Jean Genet (1910-86) é ritualisticamente repetitivo, como uma missa, e pode soar muito pausado, como um ensaio teatral. As duas empregadas, irmãs, ensaiam a adoração e morte da patroa: Claire faz o papel de Madame e Solange faz o da própria Claire, que quer envenenar Madame.

Como dirigida por Rychcik, pouco ou nada tem de repetitiva, não só pela edição, mas pelos recursos usados para amplificar as interpretações.

Prender as atrizes e projetar seus gestos e faces num telão, tomando todo o alto da boca de cena, tem como principal efeito reforçar o ritmo e as palavras de Genet.

As três atrizes, que crescem quase fisicamente no palco, acentuam a ironia, o que torna os diálogos menos lamentosos e mais provocativos.

A peça ganha em humor e compreensão, novamente, facilitada pelo vídeo que traz para o primeiro plano os sorrisos e até a concentração.

Muito da apresentação acontece só com Bete Coelho e Magali Biff, que vivem Claire e Solange ou, no ensaio-dentro-da-peça, Madame e Claire. O que ensaiam, em meio à paixão obsessiva por Madame, seu amante, seus bens, é um assassinato.

As opções da direção, a começar da música, enfatizam o suspense, trocando por vezes o rito pelo que mais parece um thriller —o que não é necessariamente uma perda, para o espectador.

Os diálogos conflituosos das irmãs são carregados de cinismo, mesclados à idolatria por Madame. Mas é quando a patroa de Denise Assunção volta à cena e confronta a empregada de Bete Coelho que o sarcasmo toma conta.

As palavras soam quase naturais, cada sentença é como uma tentativa de desestabilizar a antagonista, sejam as personagens, sejam as próprias atrizes, num embate sem regras e fascinante.

Denise Assunção, negra e avassaladora, é intérprete perfeita para levar as camadas de provocação político-social de Genet ao paroxismo —em papel que ela chegou a ensaiar há 26 anos, na versão do Oficina.

Entre as muitas subversões de “As Criadas” buscadas por Rychcik, a opção pela atriz talvez seja a maior, começando já por sua interpretação de “O Morro Não Tem Vez”, na primeira cena.

Uma versão desta crítica circula na edição de 9 de agosto de 2017 com o título “Em ‘As Criadas’, luta de classes se torna um thriller sarcástico”