Crítica: Em ‘Marte, Você Está Aí?’, Selma Egrei dança sobre a distopia brasileira

Por Nelson de Sá

Seria fácil para Selma Egrei cair na armadilha de tornar sua personagem, NC, uma caricatura. Ela se apresenta falando de decoração de interiores, brindando às cortinas com estampa adamascada, aos umidificadores.

Mas já então a interpretação que a atriz dá é patética, se apoiando em outras deixas do texto de Silvia Gomez, como a de que teve esperança um dia, não mais. A informação insinuada, numa peça em que nada fica muito claro, é que sofreu tortura.

A personagem, por toda a peça, parece não ter mais pé na realidade. Até sua aparente frivolidade emociona. No meio da apresentação, enquanto a trilha toca “Rocket Man”, de Elton John, com letra que remete a uma longa viagem espacial a Marte, ela dança de forma leve, apartada de tudo.

O Marte do título, que segundo a autora remete à Pasárgada de Manuel Bandeira (Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz), não se reporta apenas ao planeta —que na peça se aproxima ameaçadoramente da Terra, como no filme “Melancolia”.

Refere-se à própria NC, que assim era chamada pela filha, D, quando era criança e gostava do tema espacial. E se refere também ao cachorro que D encontra ferido —na verdade, um boneco— e que passa a chamar também assim, usando inclusive a frase-título, “Marte, você está aí?”.

Diferentemente da suposta mãe, porque também aí não existe muita certeza, a D de Michelle Ferreira se apresenta desde logo com vigorosa esperança, em luta com a realidade, jogando bombas, se machucando e se preparando para o “dia 28, avenida em chamas”.

Tanto a dramaturgia quanto a encenação de Gabriel Fontes Paiva se esforçam por afastar o espectador de raciocínios organizados, com pistas para vários lados, desarmando resistências.

Mas é inevitável relacionar D às manifestações na avenida Paulista, não só pelo que indicam as personagens. Por exemplo, trata-se do Masp, ponto de partida dos protestos, alguns deles violentos, e até a arquitetura de Lina Bo Bardi parece evocada no cenário de André Cortez.

Apesar da moldura política, trata-se sobretudo de um jogo de mãe e filha ou, melhor, de duas idades diferentes de mulher, uma ainda em revolta e paixão, a outra em resignação e desatino.

Michelle Ferreira abraça D com vitalidade, com força e beleza física, em atuação dramática diversa do que se conhecia até então.

Mas é o descolamento da realidade, representado em cena por Selma Egrei, que torna “Marte, Você Está Aí?” tão singular e envolvente. Difícil compreender o que a manteve tanto tempo longe do palco, fora atuações pontuais.

Cenografia e mise-en-scéne, além das referências constantes a Marte, dão ao espetáculo uma atmosfera de distopia, quase ficção cientifíca. A melhor incorporação disso está nos momentos de realismo mágico da atriz.

Uma versão desta crítica circula na edição de 28 de julho de 2017 com o título “Selma Egrei dança sobre a distopia brasileira”