Crítica: Com Otávio Augusto celebrando 50 anos de teatro, ‘A Tropa’ explora encruzilhada do país

Por Nelson de Sá

Ator de espetáculos históricos de teatro político no Brasil dos anos 1960, como “Os Inimigos” e “Galileu Galilei”, Otávio Augusto encontrou em “A Tropa” um texto bastante oportuno para comemorar seus 50 anos de palco.

Não que o jovem autor Gustavo Pinheiro seja um dramaturgo pronto ou que sua peça possa ser comparada àquelas de Gorki ou Brecht, mas é espantosa a capacidade que demonstra para expressar as divisões mais recentes na sociedade brasileira.

Ele escreveu sob impacto das manifestações de 2013 e sobretudo da campanha eleitoral de 2015 —e venceu outros 250 autores num concurso do CCBB do Rio.

A tropa do título são os quatro filhos já adultos de um militar, cada um incorporando uma vertente significativa da desordenada vida democrática do país, do executivo neoliberal envolvido em escândalo ao editor ambientalista desempregado.

Em um ano e meio, muita coisa mudou no Brasil, mas “A Tropa” e seu coronel não envelheceram, pelo contrário: ajudam agora a compreender um pouco o país às voltas, por exemplo, com a ascensão de Jair Bolsonaro.

O papel de Otávio Augusto reflete, em si mesmo, as sombras de uma sociedade que parece aceitar e apoiar o desrespeito instituído, o preconceito, a tortura.

O ator não tem a agilidade de outros tempos, na movimentação como nos diálogos, mas segue inalterada a relação direta com o público, a capacidade de trazê-lo rindo para o seu lado, não importa a monstruosidade que seu personagem apregoe.

É indesculpável e ao mesmo tempo fascinante. Argumenta com convicção pelo militarismo, pelo autoritarismo, chamando para a disputa os atores que interpretam os filhos do coronel.

Não é que tenham sido desenhados com perfeição, mas os filhos estão bem sustentados, com segurança, por Alexandre Menezes, Eduardo Fernandes, Rafael Morpanini e Daniel Marano, sob direção de Cesar Augusto, também ator de origem.

Cada um tem o seu momento de protagonismo, abordado com compreensão e alguma compaixão pelo texto —que poderia apenas ser mais lapidado, para evitar os eventuais solavancos.

Parte da sensação de irregularidade do espetáculo vem da cenografia, dos figurinos e objetos, pouco expressivos ou elaborados, desde um quarto hospitalar trivial até sacolas displicentes que parecem de supermercado.

No roteiro bem costurado, são quatro filhos, mas a falha trágica original, em torno da qual se distribuem rancores e recriminações na “tropa”, é a morte do quinto, ainda menino, ocorrida décadas antes em situação nebulosa, num acidente de carro.

Os filhos visitam o pai no hospital e, lentamente, tudo vêm à tona, mais ou menos como acontece no Brasil destes últimos anos.

Uma versão desta crítica circula na edição de 23 de junho de 2017 com o título “Com Otávio Augusto, ‘A Tropa’ explora encruzilhada do país”