“Hamlet – Som e Fúria”, montagem da Armazém Cia. de Teatro, estréia no CCBB – RJ

Por Lenise Pinheiro

Mentes impacientes, atuações espontâneas, estudos continuados e sapatos gastos entre os caminhos que levam ao teatro. Nesse novo trabalho, William Shakespeare é reverenciado a cada passo da edição do texto. A ousadia e a sofisticação, marcas da companhia, seguem adiante. Trazendo vibração à cada troca de cena e de luz. A música, presença constante e marca da companhia, corta a atmosfera densa, irrompendo laços e afetos em Elsinore:

– “Quando o sangue esquenta, a alma manda a língua fazer promessas. E brasas produzem mais luz do que calor”.

Nessa adaptação o ritmo é alucinante, edições com cortes, incisões e agulhas que anestesiam a superficialidade. Erupções, insanidades e tempos fora do eixo:

– “Destino desgraçado ter vindo a esse mundo para consertar o que é errado. O coração parece que vai explodir e eu tento manter a boca fechada. Lembrar de você sim. Enquanto houver memória do meu corpo distraído. Lembra de mim”.

Solos de guitarras e pujança nos olhares. Alucinações.

Palavras, suspiros e espectros.

Atores criadores e técnicos nesse discurso fragmentado e amoroso.

Suscetibilidades, mágoas e ecos de sapatos pelo palco:

– “Parece um albergue mas é Wittenberg“. To be or not to be.

Espaços infinitos e promontórios revelados pelo primor dos artistas que regem essa sinfonia de corpos em movimento envolvidos entre véus da imaginação.

Ofensas na ponta da língua, mentes destruídas e vendavais de esperança.

Nesse país, tudo acabado, nenhum futuro e nessa montagem, Hamlet não vem para o Brasil.

Maldições lunares, juramentos e rock and roll.

A corrupção minando o poder. Dias e noites de infelicidades. Armadilhas, arrogâncias e flautas sem som.

Estômagos cheios e espíritos vazios:

– “Como se sabe o verme é o imperador da culinária, alimentamos os animais para nos engordar e nos engordamos para alimentar os vermes. Mas tanto o rei balofo quanto o mendigo magricela são variações do mesmo cardápio. Dois pratos em uma só mesa, o homem pode pescar com o verme que comeu o rei e depois comer o peixe que se alimentou do verme. O rei pode passar em cortejo pelas tripas de um mendigo”.

Sinos, cortejos e exéquias. Teatro Heavy Metal.

Caprichos dessa encenação concisa:

– “O sal das lágrimas incendeiam nossos olhos”.

O diretor Paulo de Moraes, os atores da companhia, a equipe de criação e a de produção seguem firmes. No encalço de tempos melhores. Onde trancas, desatenções, fragilidades e descasos, não fazem parte desse show.

O resto é barulho.

Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro I – Rio de Janeiro

Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos 19h

Dias 24 e 31 de julho sessões extras 19h

Obra de William Shakespeare | Montagem da Armazém Companhia de Teatro | Direção: Paulo de Moraes | Versão Dramatúrgica: Maurício Arruda Mendonça | Atores: Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost |

Participação em Vídeo: Adriano Garib (Espectro) | Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes | Iluminação: Maneco Quinderé | Figurinos: João Marcelino e Carol Lobato | Música: Ricco Viana | Preparação Corporal: Patrícia Selonk | Coreografias: Toni Rodrigues | Preparador de Esgrima: Rodrigo Fontes | Técnico de Palco: Regivaldo Moraes | Assistente de Produção: William Souza | Assessoria de Imprensa: Ney Motta | Produção Executiva: Flávia Menezes | Produção: Armazém Companhia de Teatro

Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro I – Rio de Janeiro

Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos 19h

Dias 24 e 31 de julho sessões extras 19h