“Alair”, texto inspirado no olheiro de Ipanema, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim – Rio de Janeiro

Por Lenise Pinheiro

Denise Weinberg, grande atriz, me disse uma vez:

– “Fotógrafo vê coisa que a gente não vê”.

Ontem, caminhando pela praia de Ipanema, pude observar que as imagens de Alair Gomes, não estão mais lá. Só apareceram para ele.

Conheci o Rio de Janeiro, em meados dos anos 70. O número 442 da Avenida Vieira Souto, (minha primeira pousada na Praia de Ipanema), segue intacto e inspira emoções vívidas até hoje, em meu imaginário. Um frisson se engendrou em mim, o gosto pelas imagens, pelas sombras e pelos corpos, semi desnudos. A fascinante graça das moças e dos rapazes viraram espelhos para dentro de mim. Os corpos em vários tons de pele. Os sorrisos apaixonantes. As camisas abertas, as penugens douradas nos antebraços, os cabelos artificialmente aloirados, alguns abaixo dos ombros. Soavam como apelos da liberdade que se avizinhava, à minha pouca idade.

O Pier e os aparelhos de ginástica, toscos e confeccionados com madeira, eram gastos por aqueles corpos indizíveis, leitmotiv da obra de Alair Gomes, artista reverenciado agora na montagem teatral, em cartaz, por ironia do destino, ou não. À beira mar, em Ipanema.

O estúdio a céu aberto, onde o artista vaticinou cultura está representado no palco, onde cenário e iluminação, também protagonistas, remontam o clima homoerótico, presente entre a firmeza e o charme dos atores e visto com pujança, na obra do fotógrafo em questão.

Ampliações em preto e branco, papéis fotográficos em diferentes texturas, pastas em Papel Fabriano,  fazem a alvorada dos meus sonhos e, estão presentes nessa sofisticada montagem teatral. Revelações e pernas abertas, promessas de manter chamas acessas e a capacidade de ver o sagrado,reconhecendo a presença divinal na carne:

-“A sinfonia dos ícones eróticos”.

Mora na filosofia? Aqui se rima amor e cor. Pertencimentos da renascença de Michelangelo. Peças íntimas arriadas entre preconceitos e desejos reprimidos.

Alair teve a vida ceifada. Violência:

-” Você tem medo de morrer”?

-“Me dá um abraço?”.

A locução, ao final da peça, fala da agonia do rosto de cristo, de sonhos numa realidade distante, de olhos fechados para melhor enxergar, regaços de acolhimentos, a morte desafiada pela insistência do amor.

O sol de outono, ontem num momento de rara beleza, apontava para uma camada ondulada de areia, onde meus olhos vêem a poesia de Alair.

Lindo!

Casa de Cultura Laura Alvim – Teatro – RJ

Quartas, Quintas, Sextas e Sábados 21h Domingos 20h

Texto: Gustavo Pinheiro (a partir dos diários de Alair Gomes)

Direção: Cesar Augusto

Atores: Edwin Luisi, Andre Rosa e Raphael Sander

Cenário: Mariana Villas Boas

Figurinos: Ticiana Passos

Iluminação: Tomás Ribas

Trilha Sonora: Rodrigo Marçal

Videografismo: Renato Krueger

Visagismo: Marcio Mello

Produção Executiva: Michaela Barcellos

Assistente de Direção: Luisa Pitta

Assistente de Produção: Athenea Bastos

Produção e Realização: Me Gusta Produções

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany ( a quem agradeço imensamente o carinho e respeito para comigo e meu trabalho)