Crítica: Mais do que musical sobre tropicalismo, ‘Alegria Alegria’ é miscelânea de Caetano Veloso

Por Nelson de Sá

Não é bem de tropicalismo que se trata, mas de Caetano Veloso.

Embora se apresente como retrato do movimento de cultura popular que está fazendo 50 anos, “Alegria Alegria, o Musical” é uma miscelânea de canções do cantor e compositor baiano, com pitadas de algumas outras —a exemplo do recente e também frustrante “Aquele Abraço”, em torno de Gilberto Gil.

Melhor seria encenar logo a biografia, como em tantos musicais “jukebox”, com antigos sucessos de ídolos da canção, como Tim Maia ou Rita Lee.

O problema maior, neste como naquele espetáculo, é que tem mais teatro nos shows de Caetano, Gil ou de Zélia Duncan do que no pot-pourri coral que se vê no palco do Santander.

O roteirista e diretor Moacyr Góes entremeou os quadros já desiguais com comentários que trazem, não revelações ou fio narrativo, mas uma defesa extemporânea e desnecessária do cantor e de algumas de suas referências, como Roberto Carlos ou Vicente Celestino.

É como se as canções de Caetano Veloso se tornassem plataforma para rancores de mídia social, pouco a ver com letras ou música.

Góes, de encenações memoráveis nos anos 1990 sobre arte e alguma política, como “A Escola de Bufões” e “Gregório”, este em torno do líder comunista Gregório Bezerra, retorna ao teatro sem a mesma sensibilidade.

Os textos discursivos de “Alegria Alegria” sobram para a cantora Zélia Duncan, que é atriz dramática qualificada, como mostrou no recente “Totatiando”, mas que pouco alcança como narradora neste novo espetáculo.

Dá-se melhor nos quadros em que canta, interpreta, por vezes sozinha, sem passar juízo.

Na mesma direção, Hélio Eichbauer, cenógrafo veterano que encarna a própria Tropicália, surpreende —como consegue quase sempre— com uma plataforma circular, que remete ao circo e às suas invenções da época —e que agora se divide e roda nas mãos do coro.

Este é por sua vez coreografado com a intensidade e a alegria também costumeiras de Alonso Barros.

Mas muito da criação se perde na falta de integração, por exemplo, com os figurinos desta vez deslocados de Fabio Namatame —exceção feita ao belo quase parangolé da protagonista.

Outro exemplo é a grande tela ao fundo, de início impactante, com a bandeira nacional em pedaços que se juntam, mas que é diluída por vídeos seguidamente inexpressivos, paisagísticos.

Para uma produção que se apresenta como musical, “Alegria Alegria” se ressente sobretudo da falta de desenvolvimento dramático e cadência, que nunca foram o forte do encenador. Seu final é abrupto, poderia acontecer muito depois ou antes.

Apesar da curta duração, uma hora e meia, acaba por dispersar tanto a atenção do público como, ao que parece, a própria linha do coro, longe do entusiasmo e da unidade que seriam de esperar no gênero.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 24 de maio de 2017 com o título “‘Alegria Alegria’ é pot-pourri de Caetano”