Crítica: Sem sexo e mitigando conflito, ‘Encontros.com’ desperdiça Deborah Evelyn

Por Nelson de Sá

“Sex with Strangers” figura há dois anos entre as peças mais encenadas nos Estados Unidos, com sete novas produções por temporada. Estreou em 2011, em Chicago, mas só virou fenômeno ao chegar a Nova York em 2014. Por causa dela, a autora Laura Eason foi convidada e se tornou roteirista –e agora produtora– da série “House of Cards”.

Vendo a montagem brasileira, que recebeu o título canhestro de “Estranhos.com”, é difícil compreender o que levou a tanto. Diferente de “Closer”, por exemplo, peça que causou febre semelhante há exatos 20 anos com temas parecidos, suas premissas são difíceis de aceitar.

Para um drama realista, soa falso e um bocado kitsch uma pousada no meio do nada, sem conexão com o resto do mundo, onde se encontram dois escritores igualmente implausíveis.

Ela, uma talentosa autora próxima dos 40 anos que desistiu da carreira quando seu primeiro livro passou injustamente despercebido, por causa da capa equivocada. Ele, um blogueiro de 20 e poucos anos que coletou em livro seus posts sobre experiências sexuais abusivas com desconhecidas –e há cinco anos é um best-seller.

A dicotomia se espalha por todo lado, bem ao contrário de “Closer”. Também diferente é a maneira como as referências tecnológicas envelheceram rápido demais.

O jogo de identidades sexuais on-line da peça de Patrick Marber sobrevive; já o universo de blogs e e-books de Eason ficou pelo caminho, na curta trajetória do texto.

Muito dele gira em torno da promessa ou ameaça do livro eletrônico –que não aconteceu, como a Amazon admite: seus e-books não fizeram com os livros impressos o que o Spotify fez com os CDs.

A encenação brasileira parece ter optado por enfatizar a tecnologia e um certo coleguismo em cena, tirando sexo até do título. O efeito é acentuar o puritanismo na relação, esfriando o conflito.

Não falta sensualidade aos atores Deborah Evelyn e Johnny Massaro, mas ela é pouco explorada. A relação que os seus personagens desenvolvem no palco é quase maternal –ou filial.

Ela o guia para se tornar um escritor e ser humano melhor. Ele mostra que ela pode retomar a carreira, que tem talento, sim. Os dois parecem incapazes de desejar mal um ao outro, só agem errado por medo ou inexperiência, prontamente desculpada.

Dito tudo isso, Evelyn é uma atriz cativante, que em momentos consegue fazer acreditar em seu personagem inverossímil. É quebradiça, vulnerável –a merecer um texto teatral que exija mais dela do que as peças que tem escolhido ou aceitado.

Algo parecido pode ser dito de Massaro, que foi seu sobrinho em alguma novela e que não parece novato em cena, embora seja. Um pouco que fosse da sordidez do casal de “House of Cards” ajudaria seus personagens.

Uma versão desta crítica circula na edição de 24 de abril de 2017 com o título “‘Estranhos.com’ acentua o puritanismo e esfria o conflito”000