Crítica: ‘Pagliacci’ é celebração emocionante do palhaço Domingos Montagner

Por Nelson de Sá

Seu nome não é mencionado em “Pagliacci”, mas Domingos Montagner (1962-2016) é percebido, sem parada, em 1 hora e 20 minutos de apresentação. O espetáculo é engraçado e triste, sem limite entre os dois lados.

Começa com um prólogo interpretado pelo palhaço semiaposentado e agora dramaturgo Peppe, feito com grande empatia por Fernando Paz. Ele avisa que não se trata de ópera, do conhecido dramalhão do século 19 sobre traição e morte, mas de circo-teatro mesmo.

“A vida não é uma ópera, como queria Machado de Assis, mas um circo, e somos todos palhaços”, nas palavras do prólogo, escrito pelo dramaturgo Luís Alberto de Abreu.

Para deixar claro do que se trata, Peppe toca então num serrote a ária mais conhecida da ópera de Leoncavallo, celebrizada por Pavarotti, “Vesti la Giubba”, algo como “vista o figurino”.

A ópera, apesar de melodramática, remetia à commedia dell’arte, à famosa trama de infidelidade e vingança do triângulo de Pierrô, Colombina e Arlequim, apresentado numa peça-dentro-da-peça.

O tocante e preciso “Pagliacci” de Abreu, que foi convidado a escrever o texto por Montagner, segue a mesma estrutura narrativa, mas não é drama e sim, majoritariamente, comédia popular brasileira –gênero que Abreu conhece e trabalhou como ninguém, no teatro contemporâneo.

Os temas do novo texto levam ao circo-teatro renegado pelo teatro sério, na história do palco e da rua no Brasil. E “Pagliacci” não condena mais Colombina; o alvo agora é o opressor Pierrô, numa moral para o século 21, não o 19.

Juntando forças como Chico Pelúcio na direção, Marcelo Pellegrini na direção musical, Marcio Medina e Maristela Tezlaf na cenografia, entre outras, o espetáculo pode ser visto como o cume não só dos 20 anos da Cia. LaMínima mas de todo o movimento que reaproximou o teatro do circo e da rua nas últimas três décadas no Brasil.

E o coração da história é o palhaço; aliás, dois. Está também no texto: “Um palhaço nunca anda sozinho, gosta de estar em dupla. Um aceita ser tolo, o outro não se reconhece como tal. Um sobe e desce na escada que é o outro. Quando o outro se apaga, um pode brilhar”.

A dupla da Cia. LaMínima era formada por Fernando Sampaio e Montagner. É provável que viveriam desta vez Silvio/Arlequim e Canio/Pierrô, respectivamente, o palhaço que aceita ser tolo e o que não se reconhece como tal.

Sem Montagner, a dupla é agora formada por Sampaio e Alexandre Roit –este da dupla original dos Parlapatões e um dos muitos artistas que, tanto no palco como nos bastidores, se uniram para tornar este “Pagliacci” uma celebração tão singular.

Roit é especialmente pungente no papel. Keila Bueno, conhecida do teatro musical, dá à sua Nedda/Colombina romantismo e uma sensualidade contida. Filipe Bregantim, palhaço também ele, é quase um personagem de filme mudo, expressivo, como Tonio.

A palhaça Carla Candiotto, como Strompa, “mais forte do que Monga, a mulher-gorila”, arranca aplausos em cena aberta.

Mas é Sampaio quem brilha agora, quem morre e renasce, quem faz chorar e rir.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 13 de abril de 2017 com o título “‘Pagliacci’ da LaMínima é tocante elogio ao circo-teatro”