Crítica: Absurdo de ‘Baixa Terapia’ faz surgir o melhor de seus atores, como Ilana Kaplan

Por Nelson de Sá

Antonio Fagundes, que completa 68 anos no mês que vem, diz ser sua primeira comédia em dez anos e que é uma delícia —e de fato “Baixa Terapia” tem o humor mais sem travas, popular e aparentemente irresponsável a entrar em cartaz em São Paulo num bom tempo.

Mas é também uma armadilha. O público lota as 672 cadeiras do Tuca com a expectativa de ser entretido por uma comédia de costumes —e de fato o é, até certa altura, quando o mundo parece vir abaixo.

Num realismo absurdo que lembra alguns roteiros argentinos recentes, os personagens permitem atuações firmes dos seis atores em cena, inclusive o filho, Bruno, a ex e a atual mulher de Fagundes, Mara Carvalho e Alexandra Martins, numa distribuição de papéis já provocativa.

Foram criados pelo dramaturgo Matías Del Federico, com adaptação marcada do também argentino Daniel Veronese, mais conhecido nos palcos brasileiros.

A produção teve o cuidado de se preparar durante um mês até ganhar ritmo, em ensaios abertos pagos, “previews” que permitiram aos atores mais experimentados, como Fagundes, desenvolver gestos, frases feitas, piadas.

As falas, embora a situação seja de comédia “de sala”, com sofá, cadeiras, mesas, entram por vezes numa escalada de histeria, descontrole, quando surge então o melhor dos comediantes escalados.

Em tempo: na trama, três casais de idades diversas chegam para uma sessão de terapia e são informados de que a terapeuta não estará presente, mas quer que discutam seus problemas entre eles mesmos.

Fagundes está obviamente à vontade e concentra a atenção no palco, quase como um mestre de cerimônias que evita que os confrontos que vão surgindo interrompam o ritmo. E é Ilana Kaplan o catalisador, que leva a comédia aos extremos patéticos e prepara o salto para o drama, afinal, chocante.

A atriz gaúcha, não é de hoje, se mostra uma das mais talentosas comediantes de palco no Brasil, reconhecida desde “Buffet Glória”, que a projetou em São Paulo, onde já fez de tudo, de “Terça Insana” até novelas como “I Love Paraisópolis”.

Não tem muitas falas, mas com suas interjeições e pequenas ações, em contraste com os diálogos centrais, não deixa surgirem vazios de riso ao longo da apresentação. A partir de determinado ponto, toma de vez o centro do espetáculo.

Fábio Espósito, que interpreta seu parceiro, não fica atrás, com uma caracterização também detalhada e impressionante.

Uma versão desta crítica circula na edição de 26 de março de 2017 com o título “Absurdo de ‘Baixa Terapia’ faz surgir o melhor de seus atores”