Cacilda, 10

Por Nelson de Sá

Pelas minhas lembranças, a parceria com Lenise Pinheiro começou muitos anos antes do blog. Em 1991, ela surgiu no Centro Cultural São Paulo com a atriz Bete Coelho, com quem dividia apartamento na Vila Mariana, e falou comigo para acompanhar um ensaio de “As Boas”, de Jean Genet.

Eu era assistente de Zé Celso, que voltava ao palco depois de quase três décadas, um acontecimento histórico. O próprio Zé, além de dirigir, estava em cena ao lado de Marcelo Drummond, como as criadas Solange e Clara; Raul Cortez, melhor ator que conheci, fazia Madame.

Pedi para Lenise ficar na plateia, na sala em formato de arena do Centro Cultural. Os trabalhos prosseguiram até que Raul, que tinha percebido a presença de Bete Coelho, desabou, chorando e dizendo que não podia ensaiar com uma colega, atriz, acompanhando no teatro.

A partir daquele momento histriônico, Lenise e eu nos aproximamos. Já crítico, eu a conhecia de vislumbrar em estreias, ela sempre presente, mas passamos então a conversar com frequência. Viramos parceiros na cobertura de teatro, viajamos atrás de peças por todo lado.

Na montagem seguinte de Zé, “Ham-let”, convivemos nas coxias do Teatro Oficina, finalmente reaberto. Na primeira leitura, no Sesc de São José dos Campos, quando eu ainda fazia Horácio e pensava ser ator, ela estava lá, na segunda fileira, olhar atento e carinhoso.

Exatos 20 anos atrás, quando lancei uma coletânea de textos sobre teatro (“Divers/idade – Um guia para o teatro dos anos 90”, Hucitec), quase 50 fotos e a capa/contracapa, uma colagem com Pascoal da Conceição, Matheus Nachtergaele e muitos mais, eram dela.

Também em “Cacilda!” fomos companheiros de coxia, em 1998. O nome do blog vem do espetáculo. A Cacilda que Lenise e eu conhecemos não foi aquela do TBC, mas a personagem que Zé levou ao palco, como incorporação do teatro brasileiro. A Cacilda que dizia, como nós dois: “Todos os teatros são meus teatros”.

No meio do caminho, 2003, encenamos, eu diretor, ela iluminadora e diretora de cena ao lado da inesquecível Elaine Cesar, “4.48 Psicose”, de Sarah Kane. Nunca fiz nada igual.

Depois de deixar a crítica para virar editor, eu estava sempre querendo voltar ao teatro de algum jeito, até convencer Lenise sobre o blog. A estreia foi na noite de 20 de março de 2007, com uma foto de Cacilda Becker projetada. No dia seguinte, voltei a escrever de teatro.

A imagem que acompanhava então o blog e que ainda pode ser vista nos velhos links é também uma projeção de Cacilda, ao lado de Walmor Chagas, como Estragon e Vladimir em “Esperando Godot”. A foto era projetada sobre nós. Lenise, câmera na mão, é Estragon, eu sou Vladimir.

O blog entre 2007 e 2012 está todo em arquivo. A partir de 2012, aqui.