Em ‘Deus Dará’, por jovens atores, a visão do paraíso tornada desesperança

Por Nelson de Sá

Coincidindo com o ano de horrores políticos, da derrocada da democracia no Brasil à ascensão de um projeto supremacista nos Estados Unidos, a distopia se tornou a alegoria inevitável.

Já vinha avançando na indústria cultural anglo-americana, em filmes e séries, por razões similares. E vinha ganhando o próprio palco, com peças como “Hora Amarela“.

E foi o que encontrei em uma passagem de fim de ano pela Escola de Arte Dramática –como tento fazer de tempos em tempos, até para enfrentar depois o teatro comercial cotidiano.

No caso, a peça era “Deus Dará”, com o título alternativo “Um Tratado Sobre a Desesperança”, com direção de Otto Blodorn, que fez o convite, e dramaturgia de Vitor Amato. Foi num ambiente obviamente improvisado, na sala 25, com arquibancadas pequenas e trêmulas.

Os atores se apresentaram com narizes vermelhos, de palhaço, em abordagem que pouco se vê no teatro profissional, pela infantilização. Era “uma pesquisa de linguagem do clown”, em montagem de estudantes. Não era o caso de esperar cenários elaborados, figurinos.

Mas o jovem elenco se saía bem no retrato de um “bunker”, numa sociedade destruída. Não se tem o que comer, vive-se à espera. É quase “Fim de Jogo”, mas mais leve, brincalhão.

Deve muito à capacidade das atrizes Cel Oliveira e Ellen Regina de improvisar e ir derrubando qualquer afetação, expondo falsas aparências, fazendo o público rir delas e de si mesmo.

Longinquamente inspirada num conto de Tchekhov, carrega mais na derrisão, como é próprio ao Brasil. Tirassem os narizes e seria ainda mais.

Pelo ambiente distópico e pelo viço das interpretações, de jovens atores paulistanos, até por um entusiasmado amadorismo comum, tem muitos vínculos com “3%”, a série brasileira da Netflix —que, em vez de uma sala, alcança duas centenas de países, em duas dezenas de línguas.

“3%” cuja recepção mundo afora, nas críticas de sites como “Vice” e “Gizmodo“, deixa claro que não existe hoje país mais adequadamente distópico. Ele que nasceu edênico, visão do paraíso.