Com Eriberto Leão, peça revê Jim Morrison com simbolismo e sensualidade

Por Nelson de Sá

Quando “Jim” estreou em 2013 no Rio, a crítica Barbara Heliodora reagiu de forma engraçada, falando dos “lindos seios empinados” de Renata Guida e cobrando que Eriberto Leão “tire as calças também —sou velha mas gosto”. O humor era efeito da boa surpresa, ela que foi ver “cheia de preconceitos com o ator televisivo”.

Dirigido pela terceira vez por Paulo de Moraes, encenador que estimula complexidade em textos e atuações, Leão não parece desperdiçar um verso da peça de Walter Daguerre.

Ele e Renata, em solilóquios e diálogos, encadeiam a atenção dos espectadores, mesmo daqueles que não são apreciadores ou interessados em Jim Morrison (1943-71).

Isso se deve sobretudo à atuação de Leão mas também ao texto, com uma sequência de citações não só de Morrison, seus poemas e canções, mas dos escritores de quem ele mais se serviu, William Blake, Rimbaud.

O musical corre em torno de um brasileiro, João Mota, que carrega as mesmas iniciais do cantor e faz um acerto de contas com ele, diante de seu túmulo parisiense transformado em piano, no cenário simbolista. É seu fã, mas não morreu aos 27. Deu seguimento à sua própria existência comum, se casou.

Leão faz os dois alternadamente, Morrison e Mota, o ideal romântico e o real vazio. Cultua e ao mesmo tempo questiona o Jim do título.

É peça de teatro, não show ou recital, apesar das músicas e da estrutura carregada de subjetividade e reflexão. Caminha concentrada para um final que é sugerido pelo revólver sempre em cena.

Leão interpreta 11 canções, facilmente reconhecíveis, tocadas de maneira performática pela banda que mimetiza o Doors com bateria, guitarra e teclado —Antonio Van Ahn é prodigioso à maneira do tecladista original, Ray Manzarek.

A iluminação de Maneco Quinderé não fica atrás, integrando drama e espetáculo.

Como já era evidente no início da carreira, dirigido por Gabriel Villela em musicais como “Ventania”, Eriberto Leão tem voz e presença de vocalista. E se aprofundou como ator. Por outro lado, o que não falta, sobretudo quando Renata surge alternadamente como as mulheres de Morrison e Mota, é sensualidade.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 1º de novembro de 2016 com o título “Peça revê Jim Morrison com simbolismo e sensualidade”