Crítica: Peer Gynt

Por Nelson de Sá

Várias qualidades sobressaem na nova montagem brasileira de “Peer Gynt”. A primeira é o próprio Chico Carvalho, que interpreta o papel-título da peça amalucada de Ibsen —anterior ao realismo.

Em suas mãos, o protagonista se torna um Macunaíma ou João Grilo, mais que o Odisseu homérico comumente associado ao texto. Viaja pelos mitos e cenários costurados pelo dramaturgo norueguês como um pícaro, zombando de tudo e todos.

Ao mesmo tempo, expressa consciência sobre cada frase, levando o público a acompanhá-lo como se também a tivesse.

Carvalho salta de um quadro a outro, nas viagens de Gynt, sem parada, seguindo um fio que parece estar só em sua mente. E o espectador, dada a clareza de sua expressão, o segue, embora não distinga da trama a metade.

É desses atores que tornam tudo acessível, que passeiam em pensamento e levam o público a fantasiar com eles.

Para isso, ajuda bastante a inflexão sardônica do original, traduzida de modo fluente por Léo Gilson Ribeiro para Antunes Filho, em 1971, e usada por Dan Stulbach em sua estreia em 1990, no papel.

Ajuda também a representação irônica, distanciada, que a encenação estende para todas as atuações, como a marcante mãe de Gynt, feita por Maria do Carmo Soares como aparente homenagem à atriz Maria Alice Vergueiro.

Como anota o diretor Gabriel Villela no programa da peça, o épico brechtiano, que é antirrealista, começou a ser gestado nas peças de Ibsen, por mais contraditório que isso possa parecer hoje.

Em “Peer Gynt”, as qualidades de interpretação se transportam a outras partes.

Como em todo espetáculo de Villela, é de uma exuberância visual que não parece ter fronteira —agora até mais, inspirado no protagonista. Cada um dos figurinos, e são dezenas deles, usados em trocas sucessivas pelo elenco de 15 atores, é uma obra em si.

Os figurinos-fantasias de Solveig, em especial, poderiam ou deveriam estar em exposição. É a personagem de Mel Lisboa, par romântico do protagonista, representada pela atriz com o delicado fascínio já atestado em diversos outros papéis e musicais.

De maneira cada vez mais apurada e com efeito teatral mais dinâmico, Villela torna cada cena —ou país visitado, da Noruega ao Egito— um cenário singular, remetendo a altares ou trípticos mineiros.

A inspiração mineira está também na trilha, metade dela com músicas dos Beatles. Sob direção musical de Babaya e Marco França e interpretada pelo elenco todo, inclusive linha de coro, ecoa o Clube da Esquina, até Skank.

Mas a encenação, também aqui, viaja para todo lado, com cenas que misturam festa barroca latino-americana e samba de morro. Noel Rosa, Leonard Cohen e Queen.

A adaptação é do diretor e reduz as cinco horas originais para menos de duas. Na versão de 1990, eram mais de três. É um corte excessivo, de efeito negativo no ritmo, e desnecessário para um público hoje afeito a longos musicais.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 7 de outubro de 2016 com o título “Chico Carvalho descobre Peer Gynt picaresco”