Crítica: Cartola – O Mundo É um Moinho

Por Nelson de Sá

“Cartola” não tem um roteiro propriamente teatral. Retrata o que seria a preparação de um desfile de Carnaval sobre a vida do sambista, com narrativa mais ou menos cronológica, numa linha contínua, sem grandes altos e baixos.

Para prosseguir na imagem, o musical se arrasta, com vazios entre as alas, com quadros desiguais, até chegar ao segundo ato. É quando, com a trama passando a girar em torno do personagem-título e de Dona Zica, sua mulher, finalmente ganha envolvimento.

Ganha dramaticidade, até então pouco percebida. Concentra a atenção não só da plateia, mas ao que parece do elenco de 18 atores.

A mudança se deve em parte à qualidade da atuação do protagonista, Flávio Bauraqui, e de Virgínia Rosa, que faz Dona Zica. Os dois trazem para a cena uma aura de dignidade, de nobreza artística e social que remete àquela que cercava o casal.

Como é regra no musical biográfico, a caracterização de Cartola e Zica é a atração maior. Bauraqui, veterano de musicais no Rio, volta ao papel que representou há mais de dez anos, em espetáculo aliás de estrutura bem parecida, que ecoava um samba-enredo de escola.

Hoje mais velho, aos 50 anos, e mais adequado à imagem histórica do compositor, o ator lembra Cartola em tudo, no bigode e no formato do rosto, na voz, na malemolência. É assombroso, principalmente a partir do segundo ato, ao lado de Zica.

Virgínia Rosa não só incorpora ao detalhe a última mulher de Cartola, empreendedora e segura, sustentáculo do casal e da tradição, mas é a grande cantora em cena, aquela que o teatro —plateia e palco— prende a respiração para ouvir, nos sambas clássicos do compositor.

Não que falte carisma, beleza ou voz à primeira mulher de Cartola, interpretada com vigor por Adriana Lessa, mas é ela quem enfrenta o primeiro ato, de canções menos conhecidas —ao menos em São Paulo— e de desenvolvimento teatral mais trôpego.

Cenas pontuais funcionam, caso da abertura. Bauraqui contracena com Augusto Pompeo, que faz o pai que abandona Cartola adolescente, por causa da vida boêmia que este começava a levar. É uma sombra dramática que a peça poderia aproveitar mais.

Mas o todo é muito irregular, quase turístico. O cenário, com iluminação que mais parece de quadra de escola, só fica menos agressivo quando a ação se concentra num barraco ou no restaurante
Zicartola. Também os figurinos não se encontram, tantas as formas e cores.

O humor de algumas cenas é popular ao exagero, a ponto de Silvetty Montilla, drag queen talentosa, soar deslocada e aproximar-se da pior comédia de TV. O que resgata é sempre a música de Cartola, com orquestra ao vivo, sob direção de Rildo Hora.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 20 de setembro de 2016 com o título “Sambas e seus intérpretes resgatam ‘Cartola’”