Crítica: My Fair Lady

Por Nelson de Sá

“My Fair Lady” é um musical de referência da era de ouro da Broadway, dos anos 1940 aos 60, com alta qualidade tanto nas canções da dupla Lerner & Loewe quanto no roteiro, que segue muito da comédia “Pigmaleão”, de Bernard Shaw.

Segue em especial —o que é acentuado na montagem de Jorge Takla— a luta de classes exposta no contraste entre ricos e pobres. Shaw foi um comediógrafo irlandês voltado à crítica social, politizado, autor de ensaios carregados de ironia como “Socialismo para Milionários” e “Guia da Mulher Inteligente para o Socialismo e o Capitalismo”.

No musical como na peça, a trama central é a “educação” da florista Eliza Doolittle para os gestos, os figurinos e cenários suntuosos da alta sociedade. E o protagonista é Henry Higgins, filho de família aristocrática, porém acadêmico, que a “educa”.

Mais importante, ele é um misógino, que carrega lembranças ruins com mulheres. É feito por Paulo Szot, o coração de “My Fair Lady”, com caracterização cuidadosamente construída da aversão pelas mulheres, entrecortada aqui e ali por sua reconhecida presença sedutora no palco.

O público atravessa a apresentação à espera do momento em que ele vai abrir sua belíssima voz de barítono, mas as canções do personagem foram compostas para um ator que não cantava (Rex Harrison). O papel com que Szot venceu como melhor ator da Broadway em 2008 tinha canções criadas para voz operística, como “Some Enchanted Evening”. Desta vez, não.

O efeito é um suspense ao longo de “My Fair Lady”, na esperança de ouvi-lo. Suspense que Szot acentua ao aproveitar pequenos trechos das músicas faladas para enviar sinais do que pode alcançar —e do que o levou a cantar óperas do Metropolitan ao Scala.

Sua voz só vai se revelar por inteiro, engasgando o público, no final com “I’ve Grown Accustomed to Her Face”. A canção de maior alcance reflete o trajeto do personagem: o professor Higgins começa contido, incapaz de reconhecer seu amor por Eliza, até que por fim o aceita.

Já Eliza é desde o princípio quem deixa escapar emoções, daí sua canção, arrebatando a plateia desde logo, “I Could Have Danced All Night”, com os acordes mais célebres do musical.

Reproduzindo parcialmente a trajetória na peça, a personagem é representada por uma atriz que jamais havia feito teatro profissional, uma estreante de Goiás. Daniele Nastri é bonita, delicada, emocionante. Levada no palco pela mão de Szot, é um achado.

Como se trata de Shaw, é uma comédia com final não propriamente feliz. Em “Pigmalião” era até pior, mas em “My Fair Lady”, quando Higgins/Szot parece se encaminhar para a aceitação de seu amor por Eliza/Daniele, para uma união entre classes, para a paz social, ele vira o olhar para o outro lado e demanda que ela traga seus chinelos

Esta crítica foi publicada na edição de 2 de setembro de 2016 com o título “Paulo Szot traz era de ouro da Broadway com ‘My Fair Lady'”