Crítica: O Grande Sucesso

Por Nelson de Sá

A música que fecha a comédia, composta e cantada por Alexandre Nero, ajuda a costurar “O Grande Sucesso”: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo/ Que bom que somos todos bons/ Imaculados, infalíveis, invioláveis… e inocentes”.

Embora apresente possíveis referências ao sucesso do próprio Nero como ator de televisão, o foco da peça é outro e ainda mais recente. Ecoa o clima político-social no Brasil, exacerbado pela internet e que estimulou tantos a abandonar a civilidade.

Escrita e dirigida por Diego Fortes, originalmente de Curitiba como Nero e outros atores, a peça lembra a longa tradição de comédias de bastidores. Mais especificamente, parece inspirada em “Terceiro Sinal”, como foi traduzida no Brasil a inglesa “Noises Off”, uma das melhores farsas sobre teatro já escritas.

Em ambas, a ação se passa durante um espetáculo, mas nas coxias —o espaço entre o palco e as paredes do teatro. A peça de Fortes é perspicaz, até mais do que a de Michael Frayn, quanto aos conflitos de cada ator, diante de seu ofício, e entre os atores, estas mais engraçadas.

Aborda questões teatrais permanentes, como a oposição entre realidade e fantasia e o limbo entre elas no qual vivem os atores. Limbo que são as próprias coxias, onde se amontoam os intérpretes que se dão mal, gente que “não ganha nenhum edital”.

“O Grande Sucesso” se aproxima formalmente, por outro lado, das colagens de quadros e canções que são da tradição do teatro brasileiro, sobretudo da comédia musical, e cujos exemplares mais próximos seriam o carioca Asdrubal Trouxe o Trombone e o paulistano Pod Minoga, nos anos 1970 e 80.

O espetáculo não tem um só ator que destoe, no elenco de oito, todo ele muito integrado —e que participou da própria criação das cenas e dos diálogos. São intérpretes preparados, com ritmo cômico preciso, apesar de vistos em início de temporada.

Também têm proficiência musical apurada, em instrumentos os mais diversos, apresentando canções impactantes compostas por eles mesmos. Falam do presente brasileiro com grande capacidade crítica e sem precisar apelar para bandeiras.

Nero é o ator que mais chama a atenção, mas os quadros são muitos e díspares. Lembra uma revista, por não ter fio narrativo claro. Seu tema, se é que se pode descrever assim, é “o sentido da vida”, que é refletido na própria peça: “Começa, aí acontecem algumas coisas e, aí, acaba”.

O “sucesso” do título, desesperançoso como tudo mais no espetáculo, é expresso em outra música, no meio da apresentação: “As bactérias são organismos bem-sucedidos/ As bactérias são O Grande Sucesso”. A exemplo da existência humana ou de alguma peça, elas começam, vivem umas coisas e acabam.

Como no humor político mais recente, caso do Porta dos Fundos, “O Grande Sucesso” é bastante engraçada, mas não é fácil. Se as peças do Asdrubal destampavam o riso oprimido na ditadura militar, esta só deixa escapar um riso doloroso e cínico.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 19 de agosto de 2016 com o título “Com Alexandre Nero, ‘O Grande Sucesso’ ri do teatro e do Brasil”