Crítica: Godspell, o Musical

Por Nelson de Sá

“Godspell” tem vários paralelos com “Urinal”, o espetáculo que no ano passado mostrou que musical americano não precisa ser sinônimo de criação colonizada, quando transposto para o Brasil.

São ambas peças nova-iorquinas nascidas off-Broadway, com questionamentos políticos e estéticos ao próprio modelo da Broadway, que resultam em montagens brasileiras de grande integração e virtuosismo dos atores –e sem nada da grandiosidade cenográfica associada ao gênero.

No caso, “Godspell” foi visto numa quinta-feira de muito frio em São Paulo, casa longe de lotada, mas elenco e banda transmitiram um arrebatamento que nada parecia capaz de abalar.

A confiança levou as vozes a extremos, sem deslize perceptível, e confirmou o acerto do diretor Dagoberto Feliz e do diretor musical Carlos Alberto Júnior ao manter a concentração nos atores-cantores.

Seguindo o original, que surgiu de uma encenação universitária levada ao alternativo La MaMa por poucos dias, é quase um ensaio, com personagens em sua maioria desenvolvidos e mantendo os nomes daqueles atores de 1971, então estudantes.

Os papéis extremamente característicos –como os jovens das comédias adolescentes no cinema, hoje– permitem atuações seguras de todo o elenco também jovem, como Nathália Borges, fazendo a dramática Sonia, Mariana Nunes, como a atrapalhada Gilmer, e Juliana Peppi, a exaltada Joanne.

A mesma Juliana, Beto Sargentelli e Pedro Navarro encerram aos poucos o intervalo e abrem o segundo ato com um misto de competição e exibição de voz, que não só confirma a extrema qualidade vocal dos três, mas acentua o espírito comunitário que sai da peça para envolver o público.

É quase impossível, na verdade, destacar um ou dois entre os dez atores, que ganham cada um o seu momento, o seu foco de luz –o que também reflete uma certa fraternidade cristã, tirada das parábolas de Mateus, tão conhecidas, como evidencia um quadro que pede participação da plateia.

De qualquer maneira, o múltiplo Sargentelli, que faz Judas, um dos dois personagens que não levam o nome do ator original, é quem reflete melhor e concentra a toada de “Godspell”. Rafael Pucca, como Jesus, divide a narração e o comando da peça, também com seus grandes momentos no foco.

Mas Pucca enfrenta o maior obstáculo da produção, que é o fato de ser divulgada, em cartazes etc., com outro no papel, Leonardo Miggiorin, que pouco vai ao teatro. Novamente, o problema é de produção, não da encenação, que passa bem, sem ele.

Produção que acerta em tudo mais, das versões das letras por Kaíque Azarias, inclusive na adaptação engenhosa de “Day by Day”, aos figurinos de rua por Claudia Schapira.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 13 de agosto de 2016 com o título “‘Godspell’ retoma o melhor do musical off-Broadway”