Crítica: A Melancolia de Pandora

Por Nelson de Sá

Não se pode dizer que tenha havido integração plena, orgânica, dos grupos brasileiros BR 116 e Lusco-Fusco com o americano Théâtre de L’Ange Fou, em “A Melancolia de Pandora”.

Percebe-se um conflito irresoluto de linguagem, entre a atuação centrada no texto e a encenação que prioriza movimentos e imagem –talvez resultado do desenvolvimento do espetáculo pelos dois elencos sem a presença do diretor. Steven Wasson passou dez dias no Brasil, criou a peça, mas uma mudança de cronograma impediu que acompanhasse os ensaios a partir daí.

A montagem resulta ao mesmo tempo verborrágica e visualmente exuberante. Os atores parecem buscar sentido nas palavras, enquanto os textos reunidos pelo diretor se esforçam por apagar qualquer pista de sentido.

De todo modo, resta conversa demais no palco para um teatro que se descreve expressamente, no também palavroso programa da peça, como visual. Com o diretor/autor na reta final, uma edição maior seria inevitável.

Não é teatro para o espectador buscar trama, laços claros unindo personagens e ações. A melancolia do título, o próprio mito de Pandora e seu questionamento da esperança não são temas para raciocínio, mas motivos, inspirações para as imagens.

O paralelo com o polonês Tadeusz Kantor (1915-90) é útil, neste sentido: Também no teatro de Wasson as personagens se repetem de um espetáculo para outro, caso da protagonista com a mente em descontrole, que vem de sua primeira peça em 1984; do médico que busca a destruição do mito, como cura contra a depressão; e também do anjo louco, que dá até nome à sua companhia.

Eles não carregam a atmosfera trágica dos gêmeos de Kantor, por exemplo, tirados da realidade do entreguerras, mas servem de personalidades-âncoras para o público poder mergulhar, sem constrangimentos, nas imagens. É assim que o espectador se rende ao que realmente importa, o impacto visual.

O grande prazer de “A Melancolia de Pandora” está no cenário móvel de uma caixa gigante, como uma cabeça, nas personagens que escapam dela, como pequenos anjos ou demônios saltitantes, e nas projeções que a envolvem como sonhos.

Também em gestos e movimentos dos atores, em especial alguns quadros, como nas ações em dupla do médico de André Guerreiro Lopes –que lembra Groucho Marx– e de seu assistente, interpretado pelo sarcástico Ricardo Bittencourt, com uma comicidade que vai muito além do diálogo, aliás nonsense.

Bete Coelho, no papel da mulher, tem seu momento mais tocante quando dança e brinca com as duas “sombras perdidas”, em cena que remete à sua própria origem na dança, no movimento.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 22 de julho de 2016 com o título “‘Pandora’ encontra seu melhor quando mergulha na imagem”