Crítica: Cenas de uma Execução

Por Nelson de Sá

Como o nome indica, “Cenas de uma Execução” é uma peça sobre violência. Violência que é, antes de mais nada, política –contra a expressão de uma artista, num ambiente repressivo.

Galactica, interpretada por Clarisse Abujamra, aqui também diretora, é uma pintora fictícia que recebe de Veneza a encomenda de retratar a batalha de Lepanto, em 1571, na qual uma esquadra cristã venceu e barrou o avanço otomano sobre a Europa.

No quadro, ela escancara a carnificina contra os muçulmanos, o que leva à reação das autoridades venezianas.

Não é exatamente sobre arte, como se percebe, mas sobre poder, tema recorrente de Howard Barker. É chance rara de ver uma peça do autor inglês, hoje perto dos 70 anos.

Muito influente sobre gerações posteriores de dramaturgos, como Sarah Kane (1971-99), Barker abraça violência e crueza num esforço poético de revigorar a tragédia, em oposição ao drama moderno.

Em “Cenas de uma Execução”, seu teatro da catástrofe –como foi rotulado– já vem um pouco atenuado no texto mais acessível, escrito originalmente para rádio, mas é ainda mais na encenação.

Parece querer restringir-se a um conflito estético, sem levar ao extremo os jogos de poder. Galactica é vítima, não uma protagonista carregando, nela mesma, o desejo em descontrole, a ponto de machucar os mais próximos. O espetáculo ganha ares de drama.

A indicação mais forte do caminho político que “Cenas de uma Execução” poderia seguir está na interpretação vigorosa e cristalina de Oswaldo Mendes, como o doge de Veneza.

Ator e seu personagem guiam o público, por exemplo, para além da compaixão ou empatia por Galactica. Mas Mendes se vê no mais das vezes sozinho, para tanto.

Tão cortante quanto sua atuação é, curiosamente, numa peça sobre pintura renascentista, o projeto de luz de Wagner Pinto, que dá profundidade ao palco da pequena sala Paschoal Carlos Magno, no teatro Sérgio Cardoso.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 20 de junho de 2016 com o título “Catástrofe de Barker é atenuada em peça sobre violência política”