Crítica: Rainhas do Orinoco

Por Nelson de Sá

O diretor mineiro Gabriel Villela não é nenhum novato em musicais. Uma de suas primeiras encenações foi também comédia musical, “Você Vai Ver o que Você Vai Ver”, em 1989, com o Circo Grafitti, e não era muito distante de “Rainhas do Orinoco”.

Em ambas, são figurinos alegóricos, circenses, assim como a maquiagem carregada e o cenário —desta vez, a própria cortina, seu pano, é melancolicamente significativa.

É novamente, na forma, teatro popular, interiorano, mineiro, o que resulta desde sempre, nos melhores momentos do diretor, numa atmosfera de sonho e infância.

Em “Orinoco”, Villela retrata um fim de sonho, uma desesperança, sob impacto —em seu caso individual— da tragédia ambiental de Mariana e do rio Doce, em Minas Gerais.

O texto pungente do mexicano Emilio Carballido (1925-2008) acompanha duas vedetes/prostitutas em viagem de barco para um campo de petróleo, na foz do rio Orinoco, na Venezuela. Expressa uma derrota latino-americana, que, para além de eventuais diferenças político-partidárias, está no ar.

As canções originais foram trocadas por música caipira brasileira, tradicional, em parte bem conhecida, que tem no ator, músico e arranjador Dagoberto Feliz sua grande base no palco.

Com apoio nas vozes das duas atrizes, saltando de instrumento para instrumento, ele sustenta o musical, por assim dizer, de câmara.

O jogo farsesco entre a decadente e cética Mina, vivida por Walderez de Barros, e a jovial e ingênua Fifi, por Luciana Carnielli, demora um pouco a se estabelecer, embalar.

Walderez impressiona mais pela comicidade, faceta pela qual é pouco conhecida em sua carreira. Luciana marca tanto pelo humor mais burlesco como pela desenvoltura musical, ela que vem de dois espetáculos de Chico Buarque dirigidos por Villela, “Ópera do Malandro” e “Gota d’Água”.

Um pouco mais de ritmo poderia fazer de “Rainhas do Orinoco” uma encenação de maior diversão, entretenimento, mas como está transparece, com mais clareza, o amargor hoje presente.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 17 de junho de 2016 com o título “Com texto pungente, comédia musical transparece com clareza amargor atual”