Crítica: Inútil a Chuva

Por Nelson de Sá

Depois do marco que foi “O Dia em que Sam Morreu”, uma das primeiras peças a abordar o redemoinho ético e político em que Brasil mergulhava, há um ano e meio, o grupo carioca Armazém retorna a São Paulo com “Inútil a Chuva”, no Sesc Bom Retiro.

É um espetáculo mais distante, menos representativo da realidade social —e menos envolvente.

Retrata uma família a partir do desaparecimento e provável suicídio do pai, quase um patriarca. Acompanha as reações angustiadas e obsessivas da mulher e de três filhos, dois rapazes e uma jovem.

Embora muitas vezes tocante e noutras engraçada, a peça se estende por duas horas sem estabelecer norte preciso. A cadência é lenta, com exposições prolongadas deste ou daquele personagem, em oito cenas autônomas, como se tivessem sido escritas separadamente e só depois costuradas.

Os vários números de cortina, em que um ator ou personagem aparece no canto do palco para explicar a trama e comentar comicamente o que está acontecendo, acabam por evidenciar —em vez de resolver— a desconexão entre os quadros.

Também o esforço de questionar o mercado de arte, com o pai se revelando um pintor cujas obras são mais valorizadas após sua morte, soa posterior, quase artificial —ainda que dê o pretexto para a belíssima imagem de abertura e encerramento da peça.

É um imenso barco a remo, como uma pintura, em que a família busca manter o ritmo e se manter à tona e avançar.

Escrita pelo diretor Paulo de Moraes e pelo filho, Jopa, e protagonizada pela mulher e mãe, Patrícia Selonk, “Inútil a Chuva” é essencialmente um drama realista, sobre relações familiares, sem o impacto mais generalizante e social do espetáculo anterior.

Mas os quadros marcadamente individuais permitem alguns voos aos jovens atores da companhia, casos dos filhos mais perturbados, o Claude de Tomás Braune, que se traveste e é quem mais questiona pai e mãe, e a Sarah de Andressa Lameu, de destino trágico como a Ofélia de “Hamlet” —ou Virgina Woolf.

Mas outros personagens, como o filho mais velho e a jornalista, são caricaturais e francamente inverossímeis.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 4 de junho de 2016, com o título “Com ‘Inútil a Chuva’, Armazém se volta ao drama familiar e perde impulso”