Crítica: O Pão e a Pedra

Por Nelson de Sá

Era um tema quase inevitável para a Companhia do Latão, do autor e diretor Sérgio de Carvalho. Desde “Paraíso Perdido”, que ele escreveu e Antonio Araújo dirigiu há duas décadas, o idealismo —em oposição a realismo ou materialismo— é alvo preferencial de crítica de seu grupo.

A sombra de Lula, ainda que este não surja como personagem em “O Pão e a Pedra”, está em cena o tempo todo na nova peça da Cia. do Latão, no Tusp, rua Maria Antônia. É em torno de sua imagem, da dependência dela para que algo mude, se transforme, que corre “O Pão e a Pedra”.

A greve de 1979 no ABC serve de alegoria para o que se vive hoje, no país.

Acompanha a reação de personagens diversos, trabalhadores da Volkswagen, em ambientes sociais inusitados como o vestiário da fábrica ou um cineclube do sindicato, ao carisma do líder. Contrapõe o peso de cada um, da consciência individual, ao de Lula.

Como o documentário “Peões”, dirigido por Eduardo Coutinho em 2004, evita o protagonista, ao que parece porque o excesso de luz sobre ele arriscaria apagar tudo mais, também no palco.

O coração da peça, sempre com o líder ausente a não ser por um áudio de assembleia, é o momento em que os peões, conscientes ou não, aceitam a derrota da greve, a pedido de Lula.

Eles o fazem para garantir a sobrevivência da liderança, da organização —que de fato, no ano seguinte, retornaria com um movimento maior e vitorioso, selando a derrocada da ditadura.

O operário se deixa representar por ele, entra em comunhão com Lula, num ato idealista, quase religioso, já destacado noutros documentários e filmes de ficção. Faz o que ele quer, ainda que contra o seu próprio interesse imediato.

“O Pão e a Pedra” encena um questionamento daquilo, pela voz dos trabalhadores, como indivíduos. Mas é um questionamento ricamente contraditório, em parte devido ao novo momento político no Brasil, em que o líder está outra vez acuado e não surge alternativa clara.

Numa peça que confirma o amadurecimento de Sérgio de Carvalho como dramaturgo e encenador, alternam-se harmoniosamente drama e comédia, trechos musicais e contendas políticas. Diálogos e personagens vão ganhando densidade e alguns se agigantam.

É o caso da estudante tornada metalúrgica, Luísa, representada por Sol Faganello, que deixa para trás —ainda que não de todo— o radicalismo romântico e juvenil do início.

Outro é o operário mais velho e cético, Arantes, de Ney Piacentini, que já viu tudo dar errado, mas que se reanima, mais do que ele mesmo esperava.

Também o peão característico Lucílio, de Rogério Bandeira, ao mesmo tempo emotivo e grosseiro, que aprende a conviver com os companheiros e as companheiras.

O que há de aparentemente mais anacrônico no espetáculo, ao mesmo tempo apontando questões novas, ausentes em 1979 mas centrais hoje, está representado nas muitas mulheres. Trazem para a boca de cena o machismo, a opressão que é comportamental tanto quanto financeira.

Fiel à tradição do teatro político brasileiro, “O Pão e a Pedra” ao final é quase uma convocação, como aliás já indicava o título, tirado da Bíblia, outra aparente contradição:

“Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão.”

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 27 de maio de 2016 com o título “Personagens se agigantam em retrato do sindicalismo do ABC”