Crítica: Histeria

Por Nelson de Sá

“Histeria” é uma farsa na vertente inglesa recente, que o público brasileiro conhece mais de autores como Joe Orton ou Alan Ayckbourn —embora Terry Johnson já tenha recebido uma ou outra montagem paulistana.

E aqui Johnson vai além, na verdade, com uma ambição de aprofundamento temático que muitas vezes ultrapassa seus antecessores, inclusive Tom Stoppard, na mescla precisa entre o apelo popular do gênero e a demanda intelectual.

Com o título completo “Hysteria: Or Fragments of an Analysis of an Obsessional Neurosis”, a peça estreou nos anos 1990 no teatro Royal Court, então num de seus momentos gloriosos, ajudando a restabelecer a dramaturgia como referência no teatro ocidental.

Jô Soares, cujo talento para o palco é reconhecido desde os anos 1960 por colegas como Zé Celso, sabe bem do potencial do texto que tem nas mãos —aqui apenas como diretor— mas enfrentou obstáculos que ainda se refletem nestas primeiras semanas da temporada.

Com a troca forçada do protagonista a dias da estreia, entrando um novo ator responsável por grande parte das falas e em torno do qual se dá todo o redemoinho farsesco, “Histeria” é ainda, neste início de temporada, um espetáculo que demora a ganhar ritmo e até mesmo sentido.

Em cena estão Sigmund Freud (Pedro Paulo Rangel), vivendo seus últimos dias no exílio em Londres, Jessica (Erica Montanheiro), que se revelará filha de uma ex-paciente dele, o pintor surrealista Salvador Dalí (Cássio Scapin) e um médico (Milton Levy).

Por um bom tempo, na encenação brasileira, o próprio elenco parece desconhecer por que estão todos ali, o motivo daquela confusão toda. A trama demora a ganhar contornos claros.

É só a partir da metade da apresentação que se evidencia melhor o jogo central, que opõe Jessica a Freud, a acusação de que ele precisou se adaptar à realidade ou, melhor, precisou adaptar a realidade.

Nem Freud conseguiu dominá-la por inteiro, exigindo remendar, abandonar pedaços do que pensava, revisar a realidade uma outra vez.

Daí a presença de Dalí, afinal justificada, o que faz desabrochar em comicidade não só Scapin, com atuação de gestos e silêncios grandiosos e incompreensíveis, surreais, mas o próprio Freud de Rangel.

Como a realidade não se deixar apreender, por brilhante que seja a narrativa doutrinária usada, no caso, da sexualidade infantil, o surrealismo do artista é o contraponto hilariante —e na peça contamina o psicanalista.

Mas o ataque da jovem vingadora de Montanheiro só faz aumentar, por exemplo, acrescentando fatos que Freud desconhecia de sua ex-paciente —a mãe de Jessica, depois de receber alta e ser esquecida por ele, acabou se suicidando.

Dados assim, bem como algumas pausas para explicar melhor o que está acontecendo do ponto de vista teórico, ameaçam levar “Histeria” perigosamente para o drama.

Mas Rangel e Scapin —e a própria Montanheiro, que se despe absurdamente, por exemplo, como requer o gênero em sua vertente inglesa— a essa altura já encontraram a chave e não deixam mais a farsa se perder.

Da nudez ao entra-e-sai de personagens, aos diálogos desencontrados e rápidos que mal deixam raciocinar, “Histeria” é antes de mais nada, antes de quaisquer reflexões sobre psicanálise e surrealismo, uma palhaçada.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 27 de maio de 2016 com o título “‘Histeria’ é, antes de mais nada, uma palhaçada”