Crítica: Blanche

Por Nelson de Sá

É um espetáculo que poderia facilmente chamar-se, na verdade, “Stella”.

Embora sua irmã Blanche seja igualmente marcante, como representada pelo ator Marcos de Andrade, é Stella a surpresa, a personagem que mais se revela na nova encenação de Antunes Filho e na interpretação cativante de Andressa Cabral.

No conflito tão conhecido entre Blanche e seu cunhado Stanley Kowalski, marido de Stella, interpretado por Felipe Hofstatter, desta vez não há propriamente desejo —como é regra nas leituras de “Um Bonde Chamado Desejo” desde sempre.

O que existe é violência, opressão. A opção da encenação resultou em Stella ganhar protagonismo, como eixo do turbilhão.

É ela, com sua constância e seu amor pelos beligerantes Blanche e Kowalski, não o ausente desejo entre ambos, que mantém a ação de pé ao longo das quase duas horas de apresentação. É a concentração, a variedade de sentimentos antes desconhecidos, o fervor que Andressa traz para o papel.

Isso, apesar da inexistência de qualquer diálogo: fora uma ou outra palavra, balbuciada para efeito cômico, o texto de Tennessee Williams foi quase inteiramente suprimido, trocado por uma língua imaginária, apelidada de fonemol pelo diretor.

Andrade faz uma viagem à parte dentro da representação, em que sua Blanche é a mais acabada “outsider”, em relação a tudo —e não só no âmbito americano, como nas leituras costumeiras desta que é a peça americana e sulista por excelência.

O ator e a direção aparam a personagem em busca de uma essência de Blanche, bem como de Stella, em processo semelhante ao que Antunes realizou diversas vezes, principalmente em suas montagens dos anos 1980 para as peças de Nelson Rodrigues —o autor nacional e carioca por excelência.

Em suas versões de Rodrigues, o encenador procurava retirá-lo do ambiente em que os personagens se viam presos até então, os subúrbios do Rio, as famílias, Redações. É o que se repete com Blanche, não mais a “Southern Belle” de Vivien Leigh no filme célebre, mas um catalisador de toda opressão.

Na mesma trilha, o Kowalski de Hofstatter se torna um opressor modelo. Ficou pelo caminho o desejo do título, tão bem exemplificado pelo Marlon Brando do filme, mas a nova leitura é não apenas plenamente justificável, mas de grande efeito para o clássico do “realismo poético” do dramaturgo.

Como descreve o programa do espetáculo, desta vez, mais que tudo, “trata-se de uma história de duas irmãs: Stella e Blanche DuBois”.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de 5 de abril de 2016 com o título “Antunes dirige ‘Bonde’ para Blanche e Stella”