Crítica: Caranguejo Overdrive

Por Nelson de Sá

Espetáculo que chega com expectativa da temporada carioca, “Caranguejo Overdrive” faz uma aclimatação de temas do movimento manguebeat e do autor que o inspirou, o recifense Josué de Castro (1908-1973), do romance “Homens e Caranguejos”, para o Rio de Janeiro.

Em termos políticos, inclusive. Pode ser lida como uma resposta ao efeito “gentrificador” que dois eventos globais, antes a Copa do Mundo, agora a Olimpíada, vêm tendo sobre a cidade. Remete ao aterro e canalização, no século 19, do mangue cujos caranguejos ajudavam a conter a fome dos moradores.

É o que a peça escrita por Pedro Kosovski e encenada por Marco André Nunes tem de mais pungente: a revolta contra a brutalização renitente da cidade -conhecida também dos paulistanos- simbolizada pela desumanização dos que viviam até então na zona do mangue.

Não à toa, a melhor, mais vigorosa caracterização do espetáculo é aquela do opressor, por Alex Nader, embalado pela execução pesada da música, com guitarra, bateria e baixo, reportando-se mais diretamente a Chico Science, que faria 50 anos no próximo domingo (13).

Impressionam também a transformação do protagonista, a aproximação gestual entre o jovem ator Matheus Macena e um caranguejo -aproximação reproduzida ainda por Fellipe Marques numa imagem que se fixa na mente do espectador, quase como uma instalação.

Mas a alegoria mais incômoda da crueldade é dada pelos próprios caranguejos vivos, numa gaiola, expostos à luz e depois manuseados por Nader. (Só no final se informa que o uso dos animais é inspecionado pelo Ibama.)

A trama é datada da volta de um soldado da Guerra do Paraguai, ao mangue onde não tem mais como viver. É recebido por uma paraguaia exilada tornada prostituta -a atriz Carolina Virguez- que o conduz por esse novo Rio de Janeiro. O passeio se torna um desabafo histórico sobre a República.

A longa cena tem mais oratória que teatro e é muito engraçada, sobretudo pelo vaivém de pausas e duplos sentidos da colombiana Virguez. É de comicidade próxima, formal e tematicamente, de um monólogo que também marcou o palco carioca, “Regurgitofagia”.

Entre risadas, “Caranguejo Overdrive” denuncia uma Cidade Maravilhosa que se moderniza só para manter os privilégios e a fome.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 8 de março de 2016 (para assinantes) com o título “Espetáculo ‘Caranguejo Overdrive’ cria pungente crítica à brutalização da cidade”