Crítica: 4.000 Dias ou Abra Seus Olhos

Por Nelson de Sá

É um texto qualificado, ainda que nos moldes tradicionais, de “peça bem-feita”, com andamento e cenas de impacto emocional bem preparados. Discute tema significativo, o preconceito, e ao mesmo tempo o ultrapassa, deixando claro que as relações são diversas hoje, embora persistam conflitos familiares.

Mas não tem o que sustentava as peças anteriores de Peter Quilter montadas aqui, como “Gloriosa”, com Marília Pêra: a música. Pior, a montagem não explora o que o texto oferece —que nem é tanto assim.

É também tradicional, em cenografia, marcações, exageros despropositados de realismo, por exemplo, nas comidas. E textos como este exigem concentração maior, com trabalho sem trégua de diretor e atores para buscar vitalidade nos personagens, significado nos diálogos, que são extensos.

É como se a encenação desistisse, se cansasse no meio do caminho —e a partir daí as palavras ganham ar de jogral escolar, sem aprofundamento. Os personagens estão lá, também há algum sentido, mas a sensação é de que “4.000 Dias” parou nas suas primeiras cenas.

Há também o fato de Cláudia Mello ser atriz de maior carisma e experiência do que seus parceiros de palco —ainda que se mostre distante de suas melhores atuações.

Kiko Pissolato, que faz Michael, jovem que sai do coma sem memória após 11 anos, e Sergio Lelys, que faz Paul, com quem ele vivia, têm seus momentos, esforçando-se em ir além da caricatura. Mas o contraste com Carol, a mãe vivida por Mello, é grande e desequilibra o conflito.

Em tempo: a comédia dramática opõe Carol e Paul, que disputam Michael quando este acorda, ela lembrando que Paul reprimiu a arte do filho, ele procurando reanimar o amor do casal. Todos acabam por rever seus erros e questionar seus comportamentos.

Registre-se que um aspecto que promete de início, a perda de memória, com a inspiração declarada da peça em Oliver Sacks, também não avança, não se aprofunda, resultando em mais frustração.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 12 de fevereiro de 2016 (para assinantes) com o título “Apesar de tema atual, ‘4.000 Dias’ peca por tradicionalismo e encenação cansada”