Crítica: Volpone

Por Nelson de Sá

É oportunidade que aparece uma vez por geração ou menos, em São Paulo: uma peça do inglês Ben Jonson (1572-1637) com produção profissional e protagonistas experientes, como Chico Carvalho e Gabriel Miziara.

E isso no momento em que se redescobre, nos 400 anos da morte, como Shakespeare não foi fenômeno isolado. Que tinha rivais e amigos como Jonson, o maior ao lado de Christopher Marlowe.

Oito anos mais jovem, Jonson é encenado até hoje por suas comédias, mais cortantes e satíricas, mais intelectuais e clássicas na forma do que aquelas de Shakespeare, pela descrição de Stanley Wells em “Shakespeare & Co.” (Vintage, 2008).

“Volpone” ganhou aqui uma encenação apurada materialmente, com cenário belíssimo, uma pequena caixa que se abre, remetendo aos palcos ambulantes da commedia dell’arte, um dos focos de estudo da diretora Neyde Veneziano. Também figurinos coloridos e trilha musical executada ao vivo, contracenando com os atores. Um teatro popular, em suma.

O problema, de consequências graves para o espetáculo, aparece com a opção feita para a interpretação.
É farsesca, mais para populista do que para popular. Uniformiza, faz “tabula rasa” do texto e desperdiça os intérpretes que têm à mão.

É evidente que Carvalho como Volpone, um plutocrata veneziano que perdeu sua fortuna e arma um golpe para recuperá-la, e Miziara como Mosca, o escudeiro que o ajuda e engana, esforçam-se por dar maior dimensão a seus personagens.

Também outros indicam potencial crítico, como Eliana Rocha no papel de Urraca. Mas pouco conseguem, e cena após cena se impõe a inflexão do pior teatro infantil —aquele que trata crianças com condescendência.

No caso, é a plateia adulta que se vê infantilizada, o que talvez explique a mudez, a quase revolta que se percebe no final. Claramente, trata-se de uma escolha da encenação, que joga fora os eventuais tópicos cortantes, referências à corrupção etc.

No lugar de sátira e crítica, o que se tem é chanchada, meio ingênua e circense. Vão-se as ironias em camadas, como na cena em que Volpone se faz de morto e não pode reagir, quando Mosca conspira contra ele à sua frente.

Desperdiçam-se até os pequenos achados da própria encenação, como uma entrada do pesado Corbaccio, vivido por Claudinei Brandão, quando todo o elenco salta e cai. É uma ótima piada visual, mas que se perde em meio à puerilidade generalizada.

Dada a qualidade do elenco, começando pela integração da dupla cômica central, sente-se que este “Volpone” poderia facilmente ir além. Poderia ganhar estofo e tornar Ben Jonson “nosso contemporâneo”, num país tão cheio de raposas e moscas. Mas é muito raro que aconteça de um espetáculo mudar depois de chegar ao palco.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 29 de janeiro de 2016 (para assinantes) com o título “Populista, interpretação desperdiça a clássica ‘Volpone’, do inglês Ben Jonson”