Crítica: Chet Baker – Apenas um Sopro

Por Nelson de Sá

Paulo Miklos estreou como ator em “O Invasor”, ao lado do também marcante Sabotage, com uma caracterização de marginal que conseguiu ofuscar os protagonistas —de treinamento shakespeariano— com que contracenava no filme de 2002.

Agora no teatro, o vocalista e saxofonista da banda Titãs estreia vivendo personagem também à margem e, novamente, com caracterização que ao mesmo tempo fascina e perturba.

Papel e peça, inspirados num episódio da vida do trompetista virtuosístico e cantor de voz sussurrada Chet Baker, quando ele volta a tocar após apanhar na rua e perder a maioria dos dentes, já foram concebidos com essa riqueza pelo dramaturgo Sérgio Roveri.

Os diálogos, as interpretações do personagem-título e dos demais durante a tentativa de gravação, a trama constante de música e drama: é um espetáculo todo inusitado.

Visto na estreia, ainda era uma produção a exigir ritmo, sobretudo na interação entre os músicos-atores, a maioria estreante no teatro a exemplo de Miklos —este mesmo se fecha um pouco demais, por vezes, nos meandros de seu papel.

Mas já era evidente a qualidade da peça, começando pelo texto de Roveri, que subverte seguidamente a expectativa do público, e avançando pelas atuações —em especial a cantora e ex-amante feita por Anna Toledo, já conhecida do teatro musical, e o baterista iniciante de Ladislau Kardos.

No palco, Miklos apresenta desde cara uma personificação que remete emocional e até fisicamente a Chet Baker, sem precisar de nenhuma intervenção maior, de maquiagem, trompete ou voz.

“Apenas um Sopro” ao mesmo tempo ecoa e problematiza as caricaturas de artista genial e encrenqueiro que cercam o músico americano, as suas relações com outros artistas, os seus erros e azares. No final, o mito segue de pé, para idolatria geral, mas com tintas existenciais de fragilidade.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 26 de janeiro de 2016 (para assinantes) com o título “Paulo Miklos fascina e perturba em peça”