Crítica: O Testamento de Maria

Por Nelson de Sá

Ao terminar, “O Testamento de Maria” deixa sensação de densidade, de uma hora passada sob estímulo contínuo a outras visões e possibilidades de um personagem mais do que conhecido. Não é espetáculo para monoteístas. É fácil ver por que enfrentou resistência e até protestos na Broadway, onde pouco ficou em cartaz.

Embora sem recusar em momento nenhum a possibilidade do sagrado, a Maria do irlandês Colm Tóibín ridiculariza os evangelistas por tentarem esconder a verdade, coloca em dúvida se o filho transformou água em vinho, ironiza a ressurreição de Lázaro e assim por diante.

Sobra para os “anciãos judeus”, que tramaram a execução do filho. Sobra para o próprio, que se deixou enredar pelos jovens apóstolos, todos uns “desajustados”, e acabou acreditando ser “filho de Deus”. Maria é humana, sofre como mãe, se revolta pela morte do filho.

Recuperado pelo encenador e cotradutor Ron Daniels, um momento chave do texto —que teria sido cortado da versão representada pela brilhante atriz irlandesa Fiona Shaw em Nova York— é o final, em que Tóibín relaciona Maria com Artemisa ou Diana, a deusa greco-romana também virgem, também mãe de deuses etc.

Joseph Campbell, no célebre “O Poder do Mito” (ed. Palas Athena), descreve como a ideia hebraica do messias, monoteísta e patriarcal, se encontrou com a ideia helenística do salvador que ressuscita como filho de virgem. Foi no Concílio de Éfeso, em 431 d.C., quando Maria foi proclamada “a mãe de Deus” na cidade onde ficava então o maior templo de Artemisa.

De acordo com relato em Campbell, o povo de Éfeso teria se manifestado, aos gritos, “deusa, deusa, é claro que ela é uma deusa”. A peça de Tóibín se passa poucos anos depois da morte de Cristo, também em Éfeso, onde Maria teria morrido, segundo versões.

O que não falta, como se vê, é heresia em “O Testamento de Maria”, cujo título parece procurar se contrapor por inteiro ao “Novo Testamento”. É uma busca pelo “humano”, pelo físico, ainda que engenhosamente realizada sem questionar de todo o que possa haver de transcendental, metafísico.

Obviamente, até mais do que do texto ou da encenação, sobretudo em se tratando de um monólogo, formato teatral dos mais limitados, é um espetáculo que depende da atriz. E Denise Weinberg responde com um tour de force, com força.

Sua interpretação expõe a revolta demasiado humana de Maria. Expõe os limites e a covardia da mãe, por exemplo, que não fica para o último suspiro do filho na cruz, temerosa de também ser presa. Uma Maria que julga aqueles que se associam ao filho ou a ela própria de forma por vezes superficial, mesquinha até. Que fofoca com a irmã, Marta.

Mas que parece carregar os pecados do mundo quando é recusada por Jesus ou, depois, quando vê o corpo do filho sendo tomado dela para um propósito que não parece compreender ou aceitar. Na postura ao sentar, no figurino, na gravidade do olhar, esta Maria é uma mãezona meio rabugenta, com seios fartos, coração imenso.

A encenação dilui os limites do formato com a presença de um músico no palco, Gregory Slivar, que se aproxima da sonoplastia com uma trilha de aura religiosa e oriental —o que se contrapõe também aos eventuais excessos materialistas do texto.

O monólogo transcorre com diferenças de ritmo, de raciocínio, com variações da história que conseguem manter o interesse do princípio ao fim. E o final mágico e politeísta, com a entrada em cena do mito de Artemisa, é um arremate precioso para compreender do que trata o “testamento” de Colm Tóibín.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 9 de janeiro de 2016 (para assinantes) com o título “Peça retrata Maria ‘humana’ com densidade”