Crítica: Solilóquios e Em Abrigo

Por Nelson de Sá

No cenário cada vez mais robusto da nova dramaturgia brasileira, o caminho aberto por Leonardo Moreira e outros vem sendo trilhado por nomes como Vinicius Calderoni. A forma básica é muitas vezes aquela, tão conhecida, que Plínio Marcos estabeleceu no Brasil há meio século, com dois personagens para definir o conflito, cenário mínimo, “teatro pobre”.

Foi assim com “Cachorro Morto”, do primeiro, e é assim com “Ãrrã”, do segundo, que encerra temporada neste final de ano, na Sala Crisantempo, na Vila Madalena. O próximo na lista pode ser Amarildo Felix, de “Solilóquios”, texto que se destacou neste ano no programa de dramaturgia que o Sesi mantém com o Conselho Britânico, remetendo ao modelo consagrado do Royal Court.

A exemplo dos citados e de outros como Michelle Ferreira, também Felix se volta não para o político ou o social, mas para o indivíduo e suas relações mais imediatas –o que torna esta geração distante daquela dos dramaturgos surgidos no fim dos anos 1960, engajada em frentes como combate à opressão e feminismo.

A começar do título, a peça de Felix é curiosa porque parece ter consciência e até certa visão crítica quanto à sua própria obsessão pelo indivíduo. Solilóquio é como se chama o monólogo em que o personagem fala consigo mesmo, pensa em voz alta, como em “Ser ou não ser” e outros de Hamlet, vistos como marco inaugural para o homem moderno.

Mas a peça trata disso num contexto romântico, de comédia romântica. Como os colegas de geração, o autor parece tem por referência maior os roteiros de cinema, a indústria cultural anglo-americana.

De todo modo, “Solilóquios” aponta para um talento natural de dramaturgia, alguém que lida com facilidade com a carpintaria. Por exemplo, em falas repetitivas, mas com variações sutis e inteligentes e sem ralentar a ação.

“Solilóquios” é muito simples no seu propósito: retratar a degradação inevitável do relacionamento de um casal contemporâneo, em contraponto aos exemplos que, na natureza, indicam o inverso, casais fiéis e persistentes de pinguins e outros, não perdidos nos próprios labirintos de pensamento.

Erica Montanheiro e Luciano Gatti, respectivamente “Ex-namorada” e “Ex-namorado”, vão da felicidade do primeiro encontro, da paixão, para o crescente estranhamento, para o isolamento, até a ruptura. Felix teve sorte com o elenco, que pode ser creditado com muito da concentração e do humor até físico que tomam aos poucos também o público.

Foi favorecido ainda pelo contraste com a outra peça destacada no ano pelo programa Sesi-British Council e apresentado imediatamente antes, “Em Abrigo”, de Fernando Aveiro.

Esta oferece um esgarçamento da situação supostamente controversa que apresenta –a presença do amor nas relações mais cruéis, envolvendo não só o tabu moral do sexo incestuoso, entre pai e filha, mas pedofilia.

Textos provocativos assim têm sido costumeiros no teatro contemporâneo, com canibalismo e outros tópicos, mas aqui não se alcança sequer a sensação de incômodo. A peça soa flácida, distribuindo-se por cinco personagens e atores que não chegam a conquistar desenho claro em cena.

Obviamente, são ambas produções de menor fôlego, para espaço adaptado, o Mezanino do Sesi, e plateia mínima, mas a diretora Johana Albuquerque consegue tirar muita qualidade, ao menos de “Solilóquios”.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 11 de dezembro de 2015 (para assinantes) com o título “Boa comédia romântica é sustentada pelas atuações”