Crítica: O Semeador

Por Nelson de Sá

Há 20 anos, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, então o brasileiro mais rico, estreava como dramaturgo num melodrama maniqueísta, sobre um empresário perseguido. Mas persistiu e, na peça seguinte, distanciou-se, explorou conflito. Aos poucos, encontrou-se no palco.

Não faltam autores bissextos no teatro, caso agora do político Gabriel Chalita. Buscam dar voz às suas ideias, misturam dramaturgia com oratória. “O Semeador” aborda as dificuldades de um professor no Brasil, no que promete desde logo outro melodrama maniqueísta.

Mas Chalita dá os primeiros passos com maior preparo como escritor, autor de mais de 30 livros de gêneros diversos. E tem a felicidade de contar com um protagonista como Genézio de Barros, de atuações significativas com autores de Tchekhov a O’Neill, que dá verossimilhança e empatia ao velho professor de literatura Rodolfo.

O personagem é algo desmedido, como se o autor buscasse expressar nele ideias demais, da educação no país à solidão, passando por dissolução familiar, conflito de gerações etc.

A trama: Rodolfo foi afastado da carreira por problemas emocionais que desenvolveu após a morte do segundo filho; num Natal, espera em delírio a visita do filho, que pode ser o morto, mas também um anterior, levado com poucos meses pela ex-mulher, que por sua vez tinha algum distúrbio psicólogico; e de fato ele recebe uma visita —de um vizinho, Paulo, que se revela também professor e que aos poucos dá sinais de ser talvez aquele primeiro filho.

O que se tem então é um diálogo sobre a vida do professor, suas agruras, com dois personagens que se entrecruzam também por outras razões. É um bocado de informação para uma situação, em princípio, tão simples.

O diretor Hudson Glauber poderia ter resolvido o problema com alguns cortes. De todo modo, sustentada em Barros e também no jovem professor do eficiente Thiago Mendonça, a peça funciona.

Funcionaria melhor se se distanciasse dos personagens, da busca de redenção do professor afastado, da afirmação do valor dos mestres, enfim, do bom-mocismo por trás de toda a cena. Foi a lição que Antônio Ermírio, aos poucos, aprendeu.

Obviamente, com a crise nas escolas e com professor de geografia —como Paulo— apanhando da polícia, a peça ganha até certa urgência. Mas o texto de Chalita também não permite maiores voos políticos, de crítica.

É um bom drama, sobretudo no retrato da solidão do velho professor —uma solidão que transcende o personagem e cujo peso é sublinhado, no cenário, pelo grande relógio sobre sua cabeça.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 4 de dezembro de 2015 (para assinantes) com o título “Estreia de Chalita é um bom retrato da solidão”