Galanga, Chico Rei

Por Nelson de Sá

Com texto e canções do compositor Paulo Cesar Pinheiro e direção de João das Neves, “Galanga, Chico Rei” segue a linhagem dos musicais de Arena e Opinião nos anos 1960 e 70, com narração não realista, quase documental, concentrado em figuras históricas.

No caso, um personagem mais para lendário, até inventado e meio controverso, o Galanga ou Chico do título: suposto rei do Congo no século 18, trazido escravo para o Brasil, onde comprou a sua liberdade e a de centenas de outros, voltando a ser uma espécie de rei em Minas Gerais.

Barbara Heliodora (1923-2015) anotou pouco antes de deixar a crítica, quando da estreia no Rio, há três anos, que “como outros heróis não importa que a sua história seja fictícia; tudo o que significa, principalmente para os herdeiros da escravatura, enriquece a nossa memória”.

Mais do que à história, de qualquer maneira, “Galanga” remete em sua forma à congada, a dança dramática de Minas e entorno, que surgiu no século 17 reunindo características africanas e católicas de narrativa, música e movimentos.

Junto com “Besouro Cordão de Ouro”, também da dupla, que remete à capoeira no tema e na forma, o novo musical vai se tornando tradição da Semana de Consciência Negra em São Paulo –ainda que muitas vezes no teatro adaptado da Caixa, que poderia oferecer espaço melhor.

As canções envolventes de Pinheiro e a ironia política na direção de Neves formam um tripé com os muitos talentos de Maurício Tizumba –que também vem de “Besouro”, como eles– para narrar com humor e cantar e tocar de forma instigante, popular.

“Galanga”, a exemplo de “Besouro”, se ressente da falta de um desenvolvimento narrativo propriamente teatral, com variações, menos bom-mocismo em roupagem épica.

Mas isso é em grande parte compensado pelo rito que vem da congada e se sustenta nas belas vozes femininas, a começar de Maíra Baldaia, e masculinas, todos sob a direção musical inspirada de Titane, e também nos movimentos.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 18 de novembro de 2015 (para assinantes) com o título “Rito da congada compensa problemas de musical afro”