Crítica: Macbeth e Medida por Medida

Por Nelson de Sá

Um dos questionamentos que se ouvem sobre Ron Daniels, que voltou de décadas em Londres para encenar tragédias como “Rei Lear” e “Hamlet”, é o suposto conservadorismo formal. Em vez de espetáculos, concentra-se em palavras.

Basta ver suas duas novas montagens, da tragédia “Macbeth” e da quase comédia “Medida por Medida”, para perceber a riqueza que ele acessa, na verdade –e em contraste, de fato, com grande parte da cena local.

Desta vez Daniels ganhou mais tempo para ensaios e para formar uma companhia, não uma reunião de atores. Tempo também para traduzir detalhadamente, junto com Marcos Daud, as ondas de ideias e imagens em Shakespeare.

Ondas que, como era desconhecido em português, se reproduzem na mente dos espectadores ao longo das duas apresentações.

Um deles saiu de “Medida” dizendo ser uma delícia. É a sensação também ao final de “Macbeth”: Daniels alcança uma cadência que ecoa dentro da cabeça do espectador, embalado entre o horror e as risadas, durante as duas peças, inclusive a “escocesa”, sem sentir estranheza ou oferecer resistência.

Ao mesmo tempo, compreende-se cumulativamente a complexidade dos conflitos, com camadas de referências. Para um público brasileiro cada vez mais tomado por maniqueísmo em questões de poder, violência e moral, Shakespeare assim é um alívio, realmente uma delícia.

Obviamente, é resultado que não vem só de concentração no texto, mas na representação. Daniels é o que se costuma chamar de diretor de atores.

Em Thiago Lacerda, achou um inusitado primeiro ator, capaz de responder, já no “Hamlet” de três anos atrás, às demandas de raciocínio e disponibilidade emocional, qualidades que retornam agora distribuídas por praticamente todo o elenco.

Seu Macbeth vai do heróico ao demoníaco numa trajetória convincente e assustadora, assim como o Ângelo de “Medida” vai do puritano ao devasso.

A riqueza na atuação se estende pela Lady Macbeth de Giulia Gam, num crescente de crueldade e descontrole animalesco, até o enlouquecimento e o grito de suicídio, sua maior interpretação no palco em muito tempo.

Vale também para Marco Antônio Pâmio e Luísa Thiré, que em “Medida” se deleitam, como advogados num tribunal, com alguns dos diálogos mais intrincados –e eticamente instáveis, como descreve o programa– de Shakespeare. Vale, em diferentes momentos, para os 14 atores.

Marcos Suchara sobretudo, em “Medida”, Lourival Prudêncio e Felipe Martins, nas duas peças, são comediantes em domínio aparentemente integral de seus personagens e da cena. São belos tributos, imagina-se, aos lendários atores cômicos do velho Globe de Shakespeare.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 10 de novembro de 2015 (para assinantes) com o título “Diretor acessa riqueza de Shakespeare”