Crítica: Doppelgänger, ou o Mito do Duplo

Por Nelson de Sá

“Doppelgänger, ou o Mito do Duplo”, uma peça curta e bem-humorada, uma comédia carioca, lembra um filme de Woody Allen. Seu universo são atores, psicanalistas, conflitos de classe média urbana, Zona Sul.

É quase como uma esquete estendida, com ambições existencialistas e bastante auto-ironia.

Na trama, o ator de televisão Júlio Matos, feito por Ricardo Kosovski, discute seus problemas conjugais com um psicanalista, feito por André Mattos, que por sua vez é apaixonado pela mulher de Júlio, também atriz. Mas um duplo, doppelgänger, quer tomar o lugar de Júlio, iniciando conflitos diversos.

Domingos Oliveira se sai bem com o gênero que chama de vaudeville de terror e para isso conta em grande parte com a experiência cômica dos atores, nesta encenação vinda do Rio.

O título em alemão, como explicam os três atores no início da apresentação, remete ao mito de que todos os seres humanos têm um sósia do mal, que podem eventualmente encontrar.

É um título que engana quanto às ambições míticas do espetáculo –que não chegam a ser confirmadas– e que serve de trampolim para retratar relacionamentos contemporâneos, com dados como o fascínio provocado por uma atriz e traições diversas.

Como autor e diretor, Oliveira já alçou voos mais elevados, mas a peça se segura bem e diverte, dado o ritmo que alcança e a qualidade, em especial, da atriz.

Priscilla Rozenbaum tem atuação leve, entrando e saindo da personagem, também uma atriz, e dirigindo-se com desenvoltura e cumplicidade à plateia.

Com toda a sua aparente superficialidade e rapidez, com uma hora contada no relógio pelos atores, que brincam sobre o tempo com os espectadores, não deixa de, à sua maneira, tratar com atenção daquilo que tanto interessa ao seu público.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 10 de novembro de 2015 (para assinantes) com o título “Dramaturgo e elenco experiente se saem bem em ‘Doppelgänger'”