Hoje

Por Nelson de Sá

“Hoje” é uma performance ou “resposta cênica” de Leonardo Moreira e da Cia. Hiato ao último espetáculo de Tadeusz Kantor e da companhia Cricot 2, “Hoje É Meu Aniversário”, de 1991.

Relata o que poderia ser, de fato, um aniversário. Desfila memórias enganosas, como avisa a atriz Aline Filócomo ao microfone, abrindo a apresentação no centro da mostra do centenário de Kantor no Sesc Consolação, em São Paulo.

O teatro do diretor polonês é, em parte, enganosamente confessional e combina com o do diretor brasileiro. Desde 2008, este se movimenta em parte no mesmo terreno –evocando sua própria vida, a dos atores e de outros, ou então com memórias inventadas, até delírios.

Uma diferença é que Moreira se prende às coxias, mas isso importa pouco. “Hoje É Meu Aniversário”, aliás, era um espetáculo em que Kantor estaria novamente no palco, mas morreu às vésperas. Mais importante, eram novamente flashes de recordações fugazes, sem a ilusão da realidade.

Em “Hoje”, o aniversariante é o ator Edison Simão –que já esteve em “O Jardim”, da Hiato, como um senhor com Alzheimer e suas lembranças eventuais. Ele aqui repassa sua vida, recebe a mãe, a mulher, os amigos.

Alguns são de verdade, estão lá fisicamente, outros são representados, quase como fantasmas.

O elo entre as memórias e a cena é dado por objetos ou gestos repetitivos, como uma pose estranha de Simão numa foto, quando criança, ao lado da mãe e do irmão, que é reproduzida artificial e compulsivamente por parte dos atores.

A ligação com o espetáculo final de Kantor também se dá assim, indiretamente, como nas fotos imensas projetadas ao fundo e tiradas durante a apresentação, o “aniversário”. Remetem às três grandes molduras, com função semelhante, que marcaram “Hoje É Meu Aniversário”.

As fotos familiares, as canções populares improvisadas, o todo meio patético de “Hoje” contrasta com a gravidade inevitável que vazava das memórias de Kantor em suas peças, produto de guerras mundiais, num de seus palcos mais machucados, a Polônia.

“Hoje” não deixa de ser, talvez inadvertidamente, uma recordação do Brasil, pouco trágica e grandiosa, mas ainda assim verdadeira e tocante.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 6 de novembro de 2015 com o título “‘Hoje’, da Cia. Hiato, realça uma memória verdadeira e tocante”