Répétition

Por Nelson de Sá

“Répétition”, ensaio em francês, uma peça sobre teatro, foi aquela que afastou o dramaturgo Flavio de Souza do teatro por mais de uma década. Não por qualquer coisa ligada ao texto diretamente, mas pelas dificuldades que enfrentou numa segunda montagem, em que tudo deu errado.

Conflitos de produção, não necessariamente financeiros, mas de toda ordem, de relacionamento sobretudo, são o próprio assunto da comédia escrita por ele em 1994. Faz um retrato engraçado, mas também amargo, dos bastidores do teatro, suas traições, misérias.

Na trilha aberta por Plínio Marcos e seguida por gerações posteriores, são poucos personagens num cenário vazio, às vezes com uma cama. É um modo de viabilizar que o autor se veja encarnado no palco, ouça os diálogos e solilóquios que imaginou e possa avançar, reanimado.

No caso, espelha o que a dramaturgia de Flavio de Souza tem de mais característico, sua aparente leveza, quase irresponsabilidade, desarmando conflitos neuróticos. Não é humor de tiradas, mas de situações, de pequenas ironias que dependem bastante dos atores.

Paulinho Serra, carioca mais conhecido em São Paulo pelos esquetes do grupo Deznecessários, é quem aproveita melhor as insinuações cômicas de “Répétition”, representando um ator perdido no meio das brigas entre a atriz de Tatianna Trinxet e o autor-diretor-ator de Alex Nader.

Com pausas hesitantes, olhares medrosos, inflexões tímidas de voz, seu personagem expõe o ridículo dramalhão que os colegas armam ao longo dos ensaios, misturando seus papéis com aqueles da peça que estão preparando –aliás, algo corriqueiro no teatro.

Tatianna e Nader não se encontram tão facilmente no humor de Flavio de Souza. Não exploram como poderiam, por exemplo, as múltiplas confusões de identidade da “peça dentro da peça”, recursos clássicos da comédia. Percebem-se soluços também no ritmo da direção de Walter Lima Jr.

A peça mais lembrada do dramaturgo é ainda “Fica Comigo esta Noite”, que lançou Marisa Orth e que ele próprio pretende remontar agora em Curitiba, mas “Répétition” é a mais bem-acabada –ao menos entre as que chegaram à cena– em estrutura e na abordagem do teatro.

Ainda que a encenação carioca tenha suas precariedades, o texto vai se tornando, pelas mãos de atores como Paulinho Serra, uma referência sobre o ofício.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 30 de outubro de 2015 com o título “Peça-dentro-da-peça cria boa referência sobre ofício teatral”