O Topo da Montanha

Por Nelson de Sá

Sob a aparência inofensiva de uma comédia romântica e depois de um realismo mágico hollywoodiano, “O Topo da Montanha” tem o poder de incomodar muita gente.

A peça da jovem americana de Memphis Katori Hall foi festejada em Londres, ao estrear em 2009, mas execrada depois em Nova York.

Seu retrato demasiado humano de Martin Luther King (1929-68), com chulé e querendo trair a mulher, não se mostrou aceitável para a imagem do líder que vinha de fazer seu derradeiro pronunciamento –que dá título à peça.

Foi o discurso de Memphis em que defendeu uma greve de lixeiros e falou contra o recurso à violência na defesa de seus direitos. No final, prenunciou o próprio homicídio, no dia seguinte, em 4 de abril de 1968.

A peça se passa naquela noite, no hotel onde King seria depois assassinado. Uma faxineira leva café até o quarto, ele pede um cigarro e os dois flertam e conversam.

A certa altura, Camea, a linda e sedutora faxineira, sobe na cama e faz um discurso oposto ao de King, em defesa da violência. Ao longo da peça, Malcolm X (1925-65) e Angela Davis, símbolos negros de ação menos pacificista, são citados em contexto elogioso.

Daí parte do incômodo, não só em Nova York, mas em São Paulo, onde estreou com Lázaro Ramos e Taís Araújo, bem-sucedidas estrelas negras –a exemplo de Samuel L. Jackson e Angela Bassett na versão nova-iorquina.

Sentado ao lado do crítico, na estreia no teatro Faap, um casal branco não parou de resmungar durante a apresentação e depois saiu falando mal para quem quisesse ouvir.

Ramos, conhecido desde a interpretação de grande energia juvenil no espetáculo baiano “A Máquina” em 2000, ao lado de Wagner Moura e Vladimir Brichta, é hoje protagonista pleno.

Compõe King de maneira contida, sem excesso no humor e menos ainda no drama. Expõe as fragilidades do personagem sem apelar ao patético. A grandeza se revela em seu olhar concentrado, por trás dos temores e defeitos.

É Taís Araújo quem responde pelo andamento, pela ação propriamente, na peça de Katori Hall. São suas as frases curtas, as “one-liners” de comédia, que ela expressa sem sublinhar demais, provocando espasmos de riso instantes depois, no público. É engraçada e emocionante

Como diretor, Ramos tem nessa contenção das atuações a qualidade maior.

De resto, inspira-se na encenação espetaculosa da Broadway, como nas projeções de personagens históricos do final –ainda que seja sempre bom lembrar vultos como o advogado e jornalista baiano Luiz Gama (1830-82), ex-escravo e líder abolicionista.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 13 de outubro de 2015 com o título “Peça com retrato humano de Martin Luther King incomoda muita gente