Agora Eu Vou Ficar Bonita

Por Nelson de Sá

Regina Braga não é Elizeth Cardoso ou Beth Carvalho, mas recria as canções clássicas do espetáculo “Agora Eu Vou Ficar Bonita” com tamanho detalhamento e tal concentração que passa por sambista. Arrisca até alguns passos tímidos.

Sua interpretação remete a uma célebre versão da atriz Judi Dench para “Send in the Clowns”, do musical “A Little Night Music”. Reconhecendo não ter maior alcance para cantar, Dench abordou a música com precisão a ponto de virar padrão técnico de voz, no palco inglês.

Em ambos os casos, é o que dá firmeza para o arrebatamento emocional, o alvo maior. E não parece ser coincidência as canções interpretadas por Braga e Dench serem sobre o envelhecimento: as duas mostram segurança e controle amadurecidos de seu ofício.

“Agora Eu Vou Ficar Bonita”, roteirizada pelo médico e escritor Drauzio Varella e pela própria atriz, que fez 70 anos, reúne sambas como “Cuidado Vovó”, com o verso-título bem-humorado: “Eu agora vou ficar bonita… Eu vou botar meus dentes/ Esticar o meu cabelo/ Vou fazer um murundu”.

Também canções mais tristes e poemas cortantes de Carlos Drummond de Andrade ou Mário Quintana, começando por “Gare de Astapovo”, do segundo, de trechos como “E então a Morte,/ Ao vê-lo sozinho àquela hora/ Na estação deserta,/ Julgou que ele estivesse ali à sua espera”.

Braga não está sozinha ao encarar o assunto. Com Varella, percebe-se no roteiro um fio quase científico sobre atitude e práticas diante da velhice, lembrando best-sellers recentes como o ótimo “Mortais – Nós, a Medicina e o que Realmente Importa no Final”, de Atul Gawande (ed. Objetiva).

Com o cantor, compositor e ator Celso Sim, em diálogos, duetos ou separadamente, Braga atinge uma integração incomum, explorando contrastes de voz –cada vez mais bela, em Sim– e de atuação, por vezes como uma dupla de palhaços, tragicômica.

A direção de arte assinada por Simone Mina, que imprime caráter de sonho a objetos cotidianos como uma janela e cadeiras, cordas e linho, e os cinco músicos completam uma curiosa roda, que é de samba, mas também de cantigas de roda, brincadeira de criança.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 9 de outubro de 2015 com o título “Com ótimas atuações, trama cria um belo retrato da velhice”