Master Class

Por Nelson de Sá

Mais do que ópera, aliás um gênero teatral, é do próprio teatro que se trata em “Master Class”.

Na origem já era assim, no texto de 1995 do dramaturgo americano Terrence McNally, trazido ao Brasil no ano seguinte com tradução de Millôr Fernandes, que queria “Aula Magna” como título, direção de Jorge Takla e a interpretação de Marília Pêra.

Questões costumeiras de teatro, como o conflito entre “ser” ou “representar” e a exigência de “disciplina”, estão presentes menos por obra de Maria Callas, a personagem principal, e mais daqueles que a reinventam no palco, em “Master Class”.

É assim agora, novamente, com direção de José Possi Neto e interpretação de
Christiane Torloni. A atriz pode não ter o humor e a auto-ironia de Marília, que garantiram os grandes momentos daquela primeira montagem brasileira, mas é também “filha da arte”, como escreve no programa da peça.

E celebra a sua arte e a de seus pais, expõe-se até fisicamente, fragiliza-se de maneira dramática ao retratar a “diva” Callas no final da vida. (Em intermináveis aulas magnas na Juilliard, escola de música e artes de Nova York, que aconteceram de fato e sobrevivem em áudio disponível no YouTube. Aulas, por sinal, bem mais concentradas em voz e música.)

“Master Class”, que apesar do Prêmio Tony não passa de uma comédia dramática leve, depende da protagonista para se justificar. Torloni, que comemora os seus “40 anos de estrada” com a peça, responde à altura.

Deixa marca própria num papel hoje “standard” para atrizes consagradas, enfatizando de forma convincente o drama em Callas.

Em 1996, depois de muito rir, o público se engasgava de emoção com um simples olhar de Marília, ao ouvir uma ária. Agora, o contraste se dá com a fragilidade de Torloni, quando seu célebre porte, como descreve o diretor, se revela tão vulnerável e quebradiço.

Na primeira montagem brasileira, Julianne Daud era atração à parte, como a soprano Sharon. Voltando agora ao papel, pode não ter a idade certa, mas seu confronto com Callas segue potente, garantindo que a trama alcance o auge.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 18 de setembro de 2015 com o título “Christiane Torloni imprime a sua marca no papel de Maria Callas”