A Tempestade

Por Nelson de Sá

“A Tempestade” remete ao melhor teatro do diretor Gabriel Villela. Aquele em que suas obsessões estéticas, sobretudo em cenografia e figurinos, ostensivamente barrocas, mineiras, se encontram com a vertente mais popular do teatro de Shakespeare.

Foi o que resultou em “Romeu e Julieta”, que nasceu em 1991 no pátio de uma igreja em Ouro Preto e correu mundo. Fincou bandeira em Londres, onde seu populismo causou espécie na crítica, mas foi bem recebido por público e comunidade teatral.

Novamente, em “A Tempestade”, encontram-se os figurinos que remontam às costureiras e aos bordados, os muitos objetos, painéis e cerâmicas. Mas com menos afetação, como se Villela já não tivesse necessidade de abafar em exuberância visual o que não atinge na cena.

Esta é bem resolvida, melhor que em “Romeu e Julieta”, e isso se deve em parte à qualidade e experiência dos atores. Em especial ao trio em torno do qual tudo corre nesta versão, dos personagens Próspero, Ariel e Caliban.

O Próspero de Celso Frateschi é capaz de solilóquios e introspecção próprios de quem viveu Hamlet, como ele em 1984, dirigido por Márcio Aurélio. Agora, trata-se do papel com que, na visão corrente, Shakespeare se despediu de sua magia, do teatro.

Frateschi faz muito bem a passagem, crescentemente em paz, racionalmente sereno, com seus cabelos e barba grisalhos, o que ajuda em sua composição de Próspero.

O Ariel de Chico Carvalho é especialmente envolvente. É com ele que o espectador mais se identifica. Seus olhares e apartes são aqueles que o público contemporâneo compreende melhor e dos quais se sente mais partidário. O que anseia é liberdade, tornar-se dono de seu nariz.

Vindo de outras peças do autor, como “Ricardo 3º”, dirigido por Marcelo Lazzaratto, Carvalho é também quem consegue mais dinamismo nos movimentos com as quase fantasias de Carnaval que Villela criou, junto com José Rosa, para o trio central.

Fechando o grupo, mal se vê a face do Caliban de Hélio Cícero por trás da belíssima máscara de escamas. Mas ele é engraçado, menos atemorizante que de costume, e é sobretudo, como diz o diretor no programa, inquietante.

À sua maneira, tem empatia. Mas não se busque no personagem qualquer ponte com o acrônimo canibal, ou seja, com os antropófagos tupinambás que tanto fascinaram europeus como Montaigne, uma fonte de Shakespeare.

A ponte com o país se dá por outros caminhos, entre eles uma seleção sem fim de cantigas populares, nem sempre justificáveis do ponto de vista do enredo, mas que embalam os atores e a plateia.

O restante do elenco está uniformemente bem, com destaque talvez para o ritmo cômico alcançado pela dupla de palhaços Dagoberto Feliz e Romis Ferreira. Consegue-se integração, unidade, através em parte do recurso à música, com os talentos desenvolvidos por cada um —por exemplo, a flauta de Frateschi.

No formato de arena do teatro, quase um circo de concreto, aos poucos “A Tempestade” alcança o que se pode descrever como congraçamento com os espectadores.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 28 de agosto de 2015 com o título “Peça alcança congraçamento com o público”