Totatiando

Por Nelson de Sá

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O elo entre o teatro e a música popular contemporânea é conhecido, em especial no campo das grandes intérpretes. Maria Bethânia realizou os seus espetáculos históricos pelas mãos dos diretores-dramaturgos Augusto Boal e Fauzi Arap.

Zélia Duncan está no mesmo caminho desde o princípio. Estudou para ser atriz, na CAL (Casa das Artes das Laranjeiras), no Rio. Ainda nos anos 1990, foi dirigida por Bete Coelho em “Intimidades”, mas era então contida na adoção de personagens e até figurinos do teatro.

Em “Totatiando”, dirigida pela também atriz Regina Braga, Zélia alcança uma inesperada maturidade de atuação, resultado em parte, talvez, dos três anos de estrada com as primeiras versões do espetáculo.

A diretora consegue encenar, com base nas canções de Luiz Tatit –que já têm muito de narrativas– e rápidas intervenções de dramaturgia, um musical engraçado e, em vários momentos, emocionante.

Principalmente, faz de Zélia, que celebra em outubro os seus 50 anos, uma atriz desenvolta, sem temor de se vestir de palhaço, de interpretar Mário de Andrade ou outros personagens –a começar pelo próprio Tatit e de Itamar Assumpção (1949-2003)– e de tentar fazer rir e chorar.

Uma das passagens mais tocantes é sua interpretação de “Dodói”, com letra de Itamar, então já doente: “Eu ando tão dodói/ Mas tão dodói/ Que quando ando dói/ Quando não ando dói… Até meu dom dói/ Pois quando canto/ Não importa o tom dói”.

Como gênero, até pela variedade, “Totatiando” tem algum parentesco com o “musical hall” ou, talvez mais assumidamente, com apresentações de trovadores, sobretudo ao tomar como cenário e tema principal a cidade de São Paulo.

Mas, no espírito de Tatit, é quase uma brincadeira de roda, que vai aos poucos envolvendo os dois músicos, Webster Santos e Tércio Guimarães, depois os técnicos e então o público, tão cativante que tem lotado às terças-feiras o teatro na Cracolândia, centro da capital paulista.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 25 de agosto de 2015 com o título “Musical com trilha de Luiz Tatit cativa como brincadeira de roda”

Foto Lenise Pinheiro/Folhapress