Otelo

Por Nelson de Sá
Sao Paulo, SP, Brasil. Data 11-08-2015. Espetaculo Otelo. Atores Samuel de Assis e Mel Lisboa. Teatro Sergio Cardoso, Sala Pascoal Carlos Magno Foto Lenise Pinheiro/Folhapress
Samuel de Assis e Mel Lisboa. Lenise Pinheiro/Folhapress

São dois dos maiores personagens de Shakespeare, e os atores Samuel de Assis e Rafael Maia, dirigidos por Debora Dubois, não desperdiçam essa chance.

Na peça “Otelo”, o Iago de Maia conduz a apresentação com tiradas sarcásticas para a plateia —como Ricardo 3º na tragédia de mesmo nome. Mas é também cruel, sem trégua.

É comicamente monstruoso, tomado por uma constante volúpia de morte, de assassinato, buscando destruir o general negro, sua mulher imaculada, sua própria mulher, todos, enredando por fim a si mesmo.

Um detalhe, mas que vale anotar: Maia é expressivo até nos movimentos coreografados, de efeito visual, com uma faca com que mata uns e tenta matar outros.

O contraste com o personagem de Assis é marcado. É um Otelo que surge íntegro, nobre, até o veneno das palavras de Iago começar a corromper toda a sua retidão, de dentro para fora.

É tomado de amor romântico por Desdêmona, no princípio, mas é ainda mais arrebatado, celerado ao extremo de uma convulsão epiléptica, ao se perder em ciúme e por fim estrangulá-la.

A cena da morte na cama é especialmente bem conduzida, com o confronto entre força e fragilidade, violência e prostração.

Embora o cenário e os figurinos, principalmente aqueles de Otelo e Desdêmona, sejam bastante eficazes, o impacto de “Otelo” é garantido pela iluminação.

É o que torna vasto o pequeno palco da sala Paschoal Carlos Magno, do Sérgio Cardoso —cujo urdimento, registre-se, comprova avanços técnicos do teatro estadual (embora o ar-condicionado continue fracassando).

Desdêmona pode não estar entre os papéis femininos mais complexos de Shakespeare, mas Mel Lisboa consegue dar a ela, em diversas passagens, uma convincente e tocante inocência.

Paralelamente ao descontrole crescente de Otelo, é essa fragilidade ingênua que prepara o impacto físico do final —em um espetáculo que aparenta ter sido coreografado à exaustão.

Desempenhos virtuosos são alcançados também em personagens tragicômicos menores como Emilia e Rodrigo, envolvidos burlescamente pela trama de Iago, que depois os mata.

Numa peça com qualidades por todo lado, a começar da tradução acessível de Maria Silvia Betti, uma exceção fica por conta da trilha de velhos hits de Caetano Veloso, com letras cuja relação com a narrativa é uma incógnita, do início ao fim.

Esta não é uma encenação que imponha leituras ou procure tornar William Shakespeare, uma vez mais, “nosso contemporâneo”.

O que parece querer é encontrar o que “Otelo” tem de tão precioso, aquilo que faz da tragédia a mais popular do autor inglês no país, desde João Caetano e Machado de Assis no século 19.

Não se poderia esperar um começo melhor para o que promete ser uma extensa temporada shakespeariana, com todo tipo de encenação, comemorando os 400 anos da morte do dramaturgo.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 13 de agosto de 2015 com o título “‘Otelo’ tem atuações virtuosas de todo o elenco”