Raia 30, o Musical

Por Nelson de Sá

É mais um musical biográfico, como tantos no Brasil, mas com a diferença de Claudia Raia representar durante uma hora e meia o papel de si mesma, saudada com adjetivos como ousada e espetacular e substantivos como ícone e diva —e breves referências ao tamanho de seu nariz ou à sua altura, para amenizar a náusea causada pela espiral de exaltação.

“Raia 30, o Musical” seria uma egotrip insuportável, não fosse também uma pequena história do gênero no Brasil, nas últimas três ou quatro décadas.

Para começar, estão lá o coreógrafo e bailarino americano Lennie Dale (1934-94), do Dzi Croquettes, que Raia conheceu criança, e o produtor e diretor Walter Clark (1936-97), de “A Chorus Line”, em que Raia começou adolescente, aos 17 anos —e o crítico viu, no Teatro Sérgio Cardoso, em 1983.

Estão lá também quadros primorosos que remetem ao teatro de revista de Buenos Aires, onde Raia atuou, e ao melhor da Broadway, que ela conheçou ou interpretou, das coreografias de Bob Fosse a canções de Cole Porter, “Too Darn Hot”, de “Kiss Me Kate”, e Stephen Sondheim, “I’m Still Here”, de “Follies”.

Sobretudo, estão lá a própria Claudia Raia, inquestionável estrela musical desde a Sheila de “A Chorus Line”, e diversos talentos lapidados nessas quatro décadas, do diretor José Possi Neto ao artista múltiplo Marcos Tumura —que nada deve à protagonista em vigor físico e presença de palco, em voz e humor, até na trajetória, que vem também dos anos 1980.

Possi encena ou adapta com maestria quadros históricos do teatro musical, sustentado pela trinca da coreógrafa Tânia Nardini, que redesenha movimentos com unidade e vitalidade, do diretor musical Marconi Araújo, que obtém uma qualidade também primorosamente uniforme de voz do grande elenco, e do figurinista Fabio Namatame, abusando da sensualidade.

Opulentos e confusos, os cenários de Gringo Cardia estão um degrau abaixo, desta vez. Mas por outro lado Possi consegue editar o texto de Miguel Falabella —cenas cômicas de uma biografia mais ou menos linear— de maneira a evitar excessos e encontrar um humor quase refinado, o que o próprio, quando também dirige, não consegue.

“Raia 30, o Musical” vale ainda pelos coros, em especial o masculino, com cantores e bailarinos que cresceram em trabalhos ao lado da protagonista, como Rodrigo Negrini, que dança com precisão e entusiasmo no papel de Lennie Dale, e Alberto Goya.

Já o que mais empobrece o espetáculo está nos quadros que se apoiam no teatro musical para reciclar episódios da carreira na televisão, parte do quase obsceno personalismo.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 11 de agosto de 2015 com o título “Quadros primorosos salvam ‘Raia 30’ de autoexaltação”