Dias de Felicidade

Por Nelson de Sá

A cada fala de “Dias de Felicidade”, confirma-se o que diferencia Leilah Assumpção. Existe nela uma vivacidade constante, um conflito que se reanima sem parar, como se fosse uma máquina intermitente, uma arma automática.

Como o inglês David Hare –que é da mesma geração– acaba de falar na Flip, escrever diálogos, ao menos para alguns, é natural. E a volta de um talento natural como Leilah é sinal da vitalidade que sobrevive no teatro e na dramaturgia do país.

Ela é talvez o nome mais bem-sucedido, em público e em persistência da obra no palco, dentre os vários jovens dramaturgos brasileiros da chamada Geração 69, projetados em 1969, de nomes como José Vicente e Isabel Câmara.

Dito isso, trata-se de uma peça bem curta, o que costumam classificar de “one-act play”, com um só ato e poucos atores –característica daquele período, por razões materiais, de produção, e também por retratarem então relações pessoais mais diretas, temas comportamentais.

Mas o tema abordado agora, reportando-se em parte à experiência da autora com uma infecção no rosto, seguida de outra no cérebro, com reflexos por uma década de sua vida, poderia ter sido desenvolvido melhor em texto mais extenso, que não se resumisse a uma relação com um ex-marido.

Registre-se que as peças de Leilah, é claro, podem ser vistas como uma sequência ou um painel autobiográfico, quase uma comédia humana, desde “Fala Baixo, Senão Eu Grito”, de 1969, e passando por “Intimidade Indecente”, de 2001.

Em “Dias de Felicidade”, cujo primeiro título era “Conforto à Beira do Abismo”, os atores Walter Breda e Lavínia Pannunzio conseguem retratar companheirismo, lealdade, mas não vão muito além daí, não se aproximam do abismo.

São intérpretes de idades e também trilhos muito diversos, que não se cruzam: ele mais cômico, farsesco até, ela dramática e, quando cômica, amarga, crítica. Lavínia vislumbra, em momentos, a mulher que esconde a tragédia sob a felicidade, mas Breda puxa a peça invariavelmente para a comédia.

A encenação acaba optando pela segunda, em parte porque é o que o próprio texto indica, como redenção da realidade, mas que parece sufocá-la, mais que tudo.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 8 de julho de 2015 com o título “Drama autobiográfico seria melhor abordado em texto longo”

Leia mais sobre “Dias de Felicidade” e o retorno de Leilah Assumpção à dramaturgia em perfil e depoimento, em novembro de 2013